Diário de uma brasileira preta na República Democrática do Congo

Um dia desses, fui interceptada por um camburão de transporte público, vindo em minha direção, na contramão, seguido de uma fila de outros carros. O condutor, com cara insatisfeita, gesticulava para eu dar marcha a ré, dizendo: Yô! (que em lingala significa: você!) Zonga! (dê ré!). Por quê? Questionei-me.
No trânsito de Kinshasa, a maioria dos condutores são homens, e, desses, muitos não aceitam a presença feminina ao volante. Mulher motorista? Loucura para eles, já que a luta pela igualdade de gênero na República Democrática do Congo parece ser tão recente quanto a independência do país, que ocorreu em 1960. Ainda acham que lugar de mulher é na cozinha; e alguns – que se dizem cristãos – até usam versículos bíblicos para justificar o domínio do homem sobre a mulher. Insanidade de falsos religiosos!
As congolesas são ensinadas, desde criança, a respeitarem os homens como seres superiores. No Brasil, enfrentamos o mesmo problema. Mas já aprendemos a rodar a baiana!

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Foto: Jamile Cerqueira

Um condutor após outro, tentava me convencer. Sozinha, de vidro fechado, defendia-me, quando ouvi um cidadão me dizer: “Não saia deste carro porque se não...”.
Foi a gota d´água! Alterei minha voz e perguntei a ele: Você vai fazer o quê? Repeti muitas vezes sem pensar no risco.
Vale lembrar que as marcas de guerra neste país permanecem, e são expressas especialmente na língua falada nas ruas: nada de “por favor”, “poderia”, “obrigada”, etc.! Tudo é comando, portanto, imperativo.
Quase saindo do carro, fui convencida por um gentil congolês a ficar calma. O tal opressor calou-se, imediatamente. Não deveria estar acostumado com a minha reação. Por fim, arranjaram uma forma de desobstruir o caminho; e eu, então, passei. Cheguei ao meu curso agitada, mas satisfeita com minha decisão. Recuar seria abrir mão de meus direitos e perpetuar a discriminação de gênero vivida também neste país. Até dias atrás, seria impossível para uma congolesa ser aceita em um emprego, se esta não apresentasse uma autorização escrita de seu esposo, proibição vivida por nós brasileiras segundo nosso Código Civil de 1916, no inciso VII do artigo 242 cuja alteração ocorreria apenas em 1962. Felizmente, o congresso congolês alterou a lei 87-010, de 01 de agosto de 1987, através da emenda de lei 16/008, de 15 de julho de 2016 que suprimiu a autorização marital para mulher casada e a obrigação do casal de acordar em todos os atos jurídicos nos quais os cônjuges estariam obrigados, individualmente e coletivamente. Meses atrás, um veterinário congolês revelou-me que jamais deixaria sua esposa avançar em seus estudos, pois a perderia e não teria alguém para cozinhar e cuidar da casa. Questionamento feito em frente dos seus dois filhos homens, entre 6 e 8 anos, imagino.
Por estas e outras, quando ouço a palavra Zonga Maman, respondo sempre. ZONGA, NADA!

20170321_103200Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

 

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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