“Há muito tempo atrás, na Velha Bahia, eu imitava Little Richard e me contorcia […]” — Raul Seixas, na canção “Rock’n’Roll”, incluída em seu último disco, gravado com Marcelo Nova, A Panela do Diabo, de 1989. A presença da cultura negra na vida e na obra do Maluco Beleza é uma coisa quase inevitável. Pelo Brasil afora, quando se vai assistir a uma apresentação musical ao vivo — de qualquer gênero de música, desde uma amigável pagodeira, nas profundezas de algum quintal, até um formal concerto de câmara, em algum “centro cultural”, bem localizado ou periférico, em alguma cidade grande ou nem tanto — e, lá pelas tantas, alguém da plateia grita: “Toca Raul!”. É o que já se tornou uma espécie de “grito de guerra” de uma classe marginalizada (ou, ao menos, estigmatizada) e evoca, de certo modo, as origens de um tipo de música tão associado a um comportamento social que, de tão banalizado, se torna até engraçado. Do mesmo modo que, certa vez, nos fez rir — a nós, brasileiros; e, em particular, paulistas — o gaiato que bradou “Vai, Corinthians!”, num distante Primeiro de Maio, em plena Praça Vermelha, em Moscou, durante um desfile militar em comemoração pelo Dia do Trabalhador.
Esse, acima descrito, é o comportamento social do sujeito irreverente; um espírito anárquico que, antes de afrontar (ou, pior, confrontar) a quem ou ao que quer que seja, prefere apontar que “a roupa nova do rei” simplesmente não existe. Ou que, de tão ridícula, não deve ser levada a sério. Ao gritar em público, não importa o sotaque, mas sim o grito. Quando nos privou de sua sempre agradável companhia, em 1989 (tenho certeza de que involuntariamente), Dom Raulzito nos deixou, a título de herança, seu grito e sua gaiatice; coisas com as quais temos muito a aprender. Ele mesmo as aprendeu a duras penas, pois, de modo geral, a vida não é muito fácil para quem é cordial por natureza.
Em 1936, Sérgio Buarque de Holanda foi — e continua a ser — muito mal interpretado quando afirmou, em seu livro Raízes do Brasil, que o brasileiro seria um “homem cordial”. “Cordial”, todos sabemos, refere-se ao coração; e o coração, também sabemos bem, costuma opor-se à razão, por ter, de maneira autônoma, razões que a própria razão desconhece.
Contrariando as convenções sociais da época e do lugar em que viveu, Raulzito foi um homem cordial. Verdadeiramente apaixonado por sua arte, ele simplesmente não enxergava barreiras ou distinções que o “senso comum” impunha à vida e ao cotidiano das relações sociais. Um autêntico rocker tropical, Raulzito, desde o princípio, incluiu no desenvolvimento de sua vocação artística elementos típicos da cultura e da identidade dos negros — imprescindíveis para o que ele se propunha a fazer.
Superficialmente, houve quem o rotulasse como uma espécie de “Elvis brasileiro”. Não que isso o desonrasse, mas pouca gente sabe que Elvis só veio a ser o que foi depois que um produtor disse que ficaria rico se encontrasse um branco que cantasse como um negro. Sam Phillips, da Sun Records, encontrou. E o mundo agradece até hoje.
Tal como Elvis, Raulzito era o tipo de sujeito que se deixava permear pelos ouvidos antes que pelos olhos — desde que tudo tivesse passado pelo coração. Mesmo não sendo negro, nasceu em Salvador, cidade cuja população é majoritariamente de ancestralidade negra. E, tal como o próprio rock’n’roll, descendente do blues e do blues, suas origens musicais eram inconfundivelmente negras.
Se etnia fosse documento discriminatório, Raulzito seria preto por formação. Seus parceiros iniciais eram todos “pardos” e negros, vivendo no “escuro” da marginalização até que a indústria resolvesse aceitá-los. Raulzito era baiano, mas não “folclórico”. Não usava africanidades sanitizadas: vivia uma identidade forjada com caminhoneiros e empregadas domésticas, e não com a elite cultural branca.
Curiosamente, seu primeiro grande sucesso comercial foi “Mosca na Sopa”, um ponto de umbanda misturado com rock’n’roll visceral. Em suas casas, Raul sempre manteve nas paredes fotos de seus ídolos quase todos negros: Chuck Berry, Little Richard, Muddy Waters, Luiz Gonzaga. Como diria Michael Jackson: “No matter if it’s black or white”. O que importa é ter algo a dizer. De preferência, com boa música. Assim sendo: Toca Raul!