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Revista Raça Brasil

A quem pertence o legado de Mandela? África do Sul tenta impedir leilão de objetos pessoais

Governo recorreu ao Tribunal Constitucional para evitar que 29 itens ligados ao líder da luta contra o apartheid sejam vendidos nos Estados Unidos. Disputa envolve camisas, documentos, cartas e presentes e coloca no centro uma questão maior: onde termina uma herança familiar e começa o patrimônio de uma nação?

Uma camisa estampada. Uma carteira de identidade. Cartas escritas à mão. Presentes recebidos de presidentes. Objetos aparentemente pessoais, mas que, quando pertenceram a Nelson Mandela, passam a carregar uma pergunta muito maior: uma parte da história de um povo pode ser tratada simplesmente como propriedade privada?

É essa discussão que chegou ao mais alto tribunal da África do Sul.

O governo sul-africano recorreu ao Tribunal Constitucional para tentar impedir que 29 objetos relacionados a Nelson Mandela sejam vendidos em um leilão nos Estados Unidos.

A disputa judicial se arrasta há cerca de quatro anos e coloca em lados opostos órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio histórico do país e Makaziwe Mandela, filha mais velha do ex-presidente.

De um lado, o argumento é de que os objetos possuem importância histórica e cultural tão profunda que fazem parte do patrimônio sul-africano e, portanto, não deveriam deixar o país sem autorização.

Do outro, a família sustenta que se trata de propriedade privada herdada e que possui o direito de decidir sobre seu destino.

No centro dessa batalha está muito mais do que o valor financeiro dos objetos.

Está a memória de Nelson Mandela.

Camisas, cartas e o documento de uma nova África do Sul

A coleção reúne peças diretamente relacionadas à vida pessoal e política de Mandela.

Entre elas estão algumas de suas famosas camisas estampadas — que se tornaram praticamente uma assinatura visual do líder sul-africano —, correspondências manuscritas, presentes recebidos de figuras internacionais e um aparelho auditivo.

Há ainda um documento especialmente simbólico: a carteira de identidade verde utilizada por Mandela durante as primeiras eleições democráticas da África do Sul, realizadas em 1994.

Aquele pleito marcou o fim político de décadas de apartheid e levou Mandela à Presidência.

Pensar nesse documento apenas como um objeto pessoal é justamente parte da discussão que agora mobiliza as autoridades sul-africanas.

Porque aquela carteira de identidade pertenceu a um homem.

Mas também esteve presente em um momento que mudou a história de uma nação.

Uma chave também está no centro da disputa

Outro objeto ganhou destaque durante as discussões no Tribunal Constitucional: uma chave artesanal associada ao período em que Mandela esteve preso em Robben Island.

A peça pertence ao ex-agente penitenciário Christo Brand, que conviveu com Mandela durante parte de seu encarceramento.

Sua relação exata com a cela de Mandela, entretanto, é contestada.

A defesa de Brand afirmou perante o tribunal que a chave teria sido feita artesanalmente e que não há comprovação de que tenha sido utilizada para abrir a cela do líder sul-africano.

Ainda assim, sua associação à história de Mandela elevou consideravelmente seu valor estimado no mercado.

E é justamente aí que patrimônio, memória e comércio começam a se encontrar de maneira desconfortável.

Quanto vale um objeto porque pertenceu a Mandela?

E quem tem o direito de transformar esse valor histórico em valor financeiro?

Uma batalha que começou em 2021

O leilão foi anunciado inicialmente em 2021 pela casa norte-americana Guernsey’s, sediada em Nova York.

A venda acabou suspensa em 2022 depois que a Agência de Recursos Patrimoniais da África do Sul, a SAHRA, iniciou uma batalha jurídica para impedir que os objetos fossem comercializados.

Em 2024, o leilão voltou a ser anunciado.

Foi novamente suspenso.

Agora, a disputa chegou à última e mais importante instância judicial do país.

A SAHRA, o Museu de Robben Island e o Departamento de Esporte, Artes e Cultura defendem que os itens possuem importância para a identidade histórica e cultural da África do Sul e precisam ser protegidos.

Tribunais inferiores, entretanto, deram decisões contrárias ao governo.

Em janeiro deste ano, o Supremo Tribunal de Apelação rejeitou as objeções apresentadas pela agência de patrimônio. Entre os pontos discutidos está a necessidade de demonstrar individualmente por que cada objeto deveria ser considerado patrimônio protegido.

O Tribunal Constitucional reservou sua decisão, que ainda será anunciada.

A posição da família

Makaziwe Mandela defende o direito de comercializar os objetos herdados.

Segundo ela, os recursos arrecadados com a venda seriam utilizados para financiar a construção de um jardim memorial dedicado ao pai em Qunu, aldeia onde Mandela passou parte da infância e onde foi sepultado após sua morte, em 2013.

Esse argumento acrescenta outra camada à discussão.

A família não afirma simplesmente querer se desfazer das peças. Sustenta que os recursos seriam empregados justamente na preservação da memória de Mandela.

Mas o governo questiona se essa preservação pode acontecer às custas da dispersão de objetos históricos para coleções privadas fora da África do Sul.

Mandela pertence apenas à própria família?

Talvez seja essa a pergunta mais difícil de toda a disputa.

Nelson Mandela foi pai, avô e membro de uma família que possui direitos sobre sua herança pessoal.

Mas Mandela também se tornou algo maior.

Depois de passar 27 anos preso por sua luta contra o regime racista do apartheid, saiu da prisão em 1990 e tornou-se uma das figuras centrais da transição democrática sul-africana.

Em 1994, foi eleito o primeiro presidente negro da África do Sul.

Sua trajetória tornou-se símbolo internacional da luta contra o racismo, a segregação e a opressão.

Mandela morreu em dezembro de 2013, aos 95 anos.

Mais de uma década depois, seus objetos pessoais continuam carregando uma força que ultrapassa a biografia individual.

Uma camisa não é apenas uma camisa quando ajuda a contar a história de quem vestiu aquele tecido.

Uma carteira de identidade deixa de ser apenas um documento quando esteve nas mãos de um homem negro que, depois de passar décadas encarcerado pelo apartheid, pôde votar em uma eleição democrática e se tornar presidente de seu país.

Preservar a memória negra também é disputar a história

Para a população negra, a discussão ganha ainda outra dimensão.

Durante séculos, parte significativa da memória de povos africanos e da diáspora foi retirada de seus territórios, comercializada ou levada para museus e coleções particulares em outros continentes.

Objetos religiosos, obras de arte, documentos e peças de enorme importância cultural africana permanecem até hoje fora de seus países de origem.

Nos últimos anos, diferentes nações africanas intensificaram campanhas pela restituição desse patrimônio.

O caso Mandela não é idêntico — os objetos pertencem a herdeiros ou proprietários privados e sua situação jurídica específica está sendo discutida nos tribunais —, mas inevitavelmente toca na mesma questão fundamental:

quem deve guardar a memória de um povo?

Talvez seja justamente por isso que 29 objetos aparentemente pessoais sejam capazes de provocar uma batalha que chegou ao Tribunal Constitucional da África do Sul.

O julgamento ainda não terminou.

Mas a discussão já ultrapassou os limites do tribunal.

Porque, quando se trata de Nelson Mandela, o debate não é apenas sobre quem possui uma camisa, uma carta, uma chave ou um documento.

É sobre quem tem o direito — e a responsabilidade — de preservar uma história que ajudou a transformar o mundo.