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Revista Raça Brasil

Aos 66 anos, Miliana mudou de profissão e provou que carreira também pode começar depois dos 60

Depois de trabalhar como doméstica, faxineira e cozinheira e enfrentar um período em situação de rua, Miliana Cândido decidiu começar uma nova profissão. Sete meses depois, vendeu um apartamento de R$ 7,1 milhões — o primeiro imóvel de sua carreira.

Durante boa parte da vida, Miliana Cândido trabalhou como empregada doméstica, faxineira e cozinheira. Aos 66 anos, quando muita gente espera começar a desacelerar profissionalmente, ela decidiu fazer o contrário: iniciou uma nova carreira como corretora de imóveis.

Depois de cerca de sete meses trabalhando em uma imobiliária de Goiânia e tentando fechar o primeiro negócio, Miliana conseguiu vender um apartamento avaliado em R$ 7,1 milhões. “Foi a minha primeira venda”, contou ao g1.

O valor impressiona, mas a trajetória até chegar à negociação é ainda mais marcante. Aos 18 anos, Miliana deixou Uberlândia, em Minas Gerais, e se mudou para Goiânia depois de engravidar do primeiro filho. Na época, trabalhava como empregada doméstica. Quando perdeu o emprego, perdeu também o lugar onde morava. Sem condições financeiras para permanecer com o filho, deixou a criança temporariamente aos cuidados de familiares do companheiro e passou cerca de um mês vivendo em situação de rua.

“Não tinha condição de eu andar na rua com o filho nos braços”, relembrou.

A situação começou a mudar quando uma cunhada a ajudou a encontrar um novo emprego. Miliana passou a trabalhar e morar na casa da patroa. Vieram então anos de trabalho em diferentes funções, até que, décadas depois, ela decidiu que ainda havia espaço para começar uma nova profissão.

Em dezembro de 2025, entrou para uma imobiliária. Começar do zero nunca é simples, especialmente em um mercado competitivo, baseado em metas, relacionamento com clientes e vendas. Nos primeiros meses, nenhum negócio apareceu. Miliana participava de treinamentos, fazia ações para encontrar possíveis compradores e continuava trabalhando, mas a primeira venda não chegava. Mesmo começando a questionar se conseguiria, ela decidiu continuar.

A oportunidade apareceu justamente em um dia em que pensou em não ir trabalhar. Naquele fim de semana, Miliana havia trabalhado como cozinheira e estava cansada. Quando chegou o momento de participar de mais uma ação para prospectar clientes, não queria sair de casa. O marido insistiu para que ela tentasse. Então, ela se arrumou e foi.

Por volta das 11h30, percebeu um casal e decidiu se aproximar. Entregou seu material, conversou com os dois e apresentou o empreendimento. Eles demonstraram interesse, e aquela conversa acabou se transformando na primeira venda da nova corretora: um imóvel de R$ 7,1 milhões.

Depois de meses sem fechar nenhum negócio, Miliana estreou justamente no mercado imobiliário de alto padrão. A venda também provocou outra mudança: ela decidiu deixar os outros trabalhos e passou a se dedicar exclusivamente à corretagem.

É fácil resumir uma história como essa em uma única palavra: superação. Mas a trajetória de Miliana fala também sobre oportunidades que chegam em momentos diferentes para cada pessoa. Enquanto alguns conseguem construir uma carreira ainda jovens, outros passam décadas ocupados com tarefas mais urgentes, como sobreviver, trabalhar, criar os filhos, pagar as contas e encontrar um lugar para morar.

Por isso, começar uma nova profissão depois dos 60 não deveria ser visto apenas como uma exceção extraordinária. A história também faz pensar em quantas pessoas chegam à maturidade carregando talentos que nunca tiveram a oportunidade de experimentar.

Miliana teve muitas profissões antes de encontrar a corretagem, e nenhuma delas diminui a outra. A mulher que hoje negocia imóveis de milhões de reais é também a doméstica, a faxineira e a cozinheira que trabalhou durante décadas para construir a própria história.

Hoje, aos 67 anos, ela fala sobre disciplina, escolhas e os limites que decidiu estabelecer para a própria vida. A fé também ocupa um lugar central em sua trajetória, e Miliana atribui a Deus a força que encontrou para continuar diante das dificuldades.

Mas existe uma frase que talvez diga tanto quanto o valor milionário da negociação: “Vesti a minha roupa e fui”.

Ela estava cansada, ainda não havia vendido nada e poderia ter ficado em casa. Mas foi. Encontrou um casal, conversou, apresentou seu trabalho e fez a primeira venda.

A história de Miliana não ensina que basta querer para conseguir, porque as oportunidades não são distribuídas igualmente. Mas lembra que não existe idade determinada para descobrir uma nova possibilidade para a própria vida. Aos 66 anos, quando muita gente poderia perguntar quando ela pretendia parar de trabalhar, Miliana encontrou uma resposta diferente: estava apenas começando.