O colunista Maurício Pestana escreve sobre a concentração de renda no Brasil e a situação da população negra neste contexto

 

TEXTO: Maurício Pestana | FOTO: Rafael Cusato | Adaptação web: David Pereira

O colunista Maurício Pestana | FOTO: Rafael Cusato

O colunista Maurício Pestana | FOTO: Rafael Cusato

Há décadas, exaustivamente, procuramos mostrar que o tratamento diferenciado entre negros e brancos em nossa sociedade tem raízes exclusivamente na forma em que ambos chegaram a terras brasileiras. Um com o objetivo de explorar e enriquecer, o outro como mera mercadoria e mão de obra a ser explorado até a morte. Foram quase quatro séculos nesse jogo com regras bem estabelecidas: ao primeiro grupo, terras, poder e dinheiro. Aos escravizados, trabalho e exploração até o fim de suas vidas. O saldo: concentração imensurável de renda de um lado e exclusão e miséria do outro. Após a “abolição”, surgiram políticas universalistas de tratamento igualitário tentando ratificar os princípios republicanos de igualdade e justiça para todos. Procurava-se, assim, esconder as consequências catastróficas dos séculos de escravidão, porém, em momento algum foram enfrentadas as raízes históricas da exclusão, como a forte concentração de terras, riqueza e poder. A única tentativa – mesmo não específica nesse sentido – foi uma pífia reforma agrária, em 1964, e ainda assim, um dos motivos para o golpe militar e uma ditadura de 20 anos. De resto, o que se viu no século 20 foi mais concentração de renda e poder nas mãos de meia dúzia de famílias brancas com poderes maiores que na época da escravidão.

Os exemplos estão aí: observando regiões como Norte e Nordeste, quatro ou cinco famílias juntas concentram mais terras que alguns estados brasileiros e, certamente, não há negros entre esses abastados. Na área pública, algumas famílias dominam a política de suas cidades e estados desde sempre, e também não estamos nessa.Se mudarmos o foco para áreas de tecnologia, educação e informação, tanto em evidência nos dias atuais, veremos que meia dúzia de famílias dominam os principais órgãos de informação e comunicação do país, sem negros entre eles. As principais universidades privadas brasileiras estão nas mãos de meia dúzia de famílias e, obviamente, caras pretas não existem por lá. Do ponto de vista institucional, leis como as de cotas, obrigatoriedade do ensino da História da África e seus descendentes, a existência do Estatuto da Igualdade Racial e até criminalização do racismo, descrito na Constituição Federal, têm auxiliado muito nos avanços rumo à igualdade racial, porém, distantes de abalar as estruturas de exclusão que têm raízes históricas na forte concentração de renda nas mãos de poucos.

Neste século 21, em que tanto se fala em ascensão da classe média negra, referindo-se também à distribuição de renda como nunca visto antes e também em mais negros nas universidades do que em todo século passado, é importante indagarmos em que parâmetros a comparação está sendo realizada. Do ponto de vista intelectual é bom lembrar que no final do século 19 – há mais de 100 anos – tínhamos um engenheiro negro, o abolicionista André Rebouças, que revolucionou a engenharia e os portos no Brasil. Havia Paulo Brito, o primeiro grande editor brasileiro que lançou Machado de Assis(outro negro que fundou a Academia Brasileira de Letras). Tínhamos também Mestre Valentin, responsável pelas mais importantes edificações do Rio de Janeiro, antiga capital, além de inúmeros outros negros de projeção internacional. Isso tudo no século 19! No século 20, do ponto de vista acadêmico, o país produziu apenas um intelectual com tal projeção: o geógrafo baiano Milton Santos.

A julgar pelos parâmetros tão alardeados a nosso respeito nessa segunda década do milênio, seremos lembrados, no futuro, como os grandes negros... Consumidores de geladeiras e outras quinquilharias do século 21, impulsionando maior concentração de renda nas mãos de poucos e mais exclusão social.

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