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Revista Raça Brasil

DENÚNCIAS DE RACISMO CRESCEM 52% EM DOIS ANOS EM SÃO JOSÉ DO RIO PRETO

Município paulista registrou 96 boletins de ocorrência entre janeiro e setembro de 2026; especialistas apontam a importância da denúncia e de medidas permanentes de combate à discriminação racial.

Os registros de racismo aumentaram 52,4% em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, na comparação entre os nove primeiros meses de 2024 e o mesmo período de 2026. Segundo levantamento divulgado pelo jornal Diário da Região neste domingo (1º), foram registrados 96 boletins de ocorrência neste ano, contra 63 em 2024.

Embora os números representem um crescimento expressivo no período, os dados também exigem atenção à realidade que não aparece nas estatísticas: muitas vítimas de racismo ainda deixam de procurar as autoridades, seja por medo, falta de informação ou desconfiança em relação à responsabilização dos autores.

Em 2025, o município havia registrado 90 ocorrências nos primeiros nove meses do ano. Isso significa que, entre 2025 e 2026, o aumento foi de 6,7%. A comparação evidencia que o crescimento mais acentuado ocorreu entre 2024 e 2025, mas os registros continuaram aumentando.

Relatos revelam situações de discriminação no cotidiano

Entre os casos relatados está o do promotor de vendas Regis Aielo, de 24 anos. Segundo reportagem do Diário da Região, ele afirma ter sido informado de que precisaria passar por uma revista no cabelo ao sair do trabalho em um hipermercado de São José do Rio Preto.

O trabalhador interpretou a abordagem como uma suspeita de furto associada à sua aparência. Após o episódio, registrou um boletim de ocorrência e procurou apoio de organizações do movimento negro.

Outro relato é o do empresário Carlos Henrique Ferreira dos Santos, que afirma ter sofrido ofensas raciais durante um evento na cidade. Ele procurou a Justiça e relatou ter obtido decisões favoráveis nas esferas cível e criminal.

Os episódios ilustram como a discriminação racial pode se manifestar em diferentes ambientes, incluindo estabelecimentos comerciais, espaços de convivência e relações cotidianas.

Subnotificação dificulta a dimensão real do problema

Para a presidente do Conselho Afro de São José do Rio Preto, a advogada Claudionora Elis Tobias, os números oficiais não representam necessariamente a totalidade dos casos de racismo no município.

Segundo ela, vítimas podem deixar de registrar ocorrências por medo, falta de tempo ou dificuldade de reconhecer os caminhos disponíveis para buscar responsabilização.

A subnotificação é um desafio importante para o enfrentamento do racismo. Quando uma agressão não é denunciada, o caso pode deixar de integrar as estatísticas oficiais e dificultar a elaboração de respostas adequadas por parte do poder público.

O aumento dos registros também não significa, por si só, que houve crescimento proporcional de todos os episódios de racismo. A variação pode refletir tanto a ocorrência de novas agressões quanto uma maior disposição das vítimas para denunciar.

Combate ao racismo exige ações permanentes

Além do registro policial, o acolhimento das vítimas e a orientação jurídica são fundamentais para enfrentar a discriminação racial.

Em São José do Rio Preto, a Casa SP Afro Antônio Pompeo oferece acolhimento psicossocial e orientação jurídica a pessoas que sofreram racismo ou injúria racial. O atendimento pode ser procurado espontaneamente, sem a exigência de um boletim de ocorrência para receber orientação inicial.

A reportagem do Diário da Região também destaca a necessidade de formação permanente de profissionais de áreas como educação, saúde, assistência social e segurança pública. A preparação desses trabalhadores pode ajudar a identificar práticas discriminatórias e melhorar o atendimento às vítimas.

O enfrentamento do racismo não se limita à punição de casos individuais. Também envolve a prevenção, a conscientização, a responsabilização e a criação de mecanismos institucionais capazes de impedir que práticas discriminatórias sejam naturalizadas.

Racismo é crime

No Brasil, o racismo é crime inafiançável e imprescritível, conforme estabelece a Constituição Federal. A legislação também prevê punições para a injúria racial, que ocorre quando uma ofensa à dignidade ou ao decoro utiliza elementos referentes à raça, cor, etnia ou procedência nacional.

Diante de uma situação de discriminação, a vítima pode procurar uma delegacia para registrar a ocorrência e buscar orientação sobre as medidas legais cabíveis.

O aumento dos registros em São José do Rio Preto reforça a necessidade de manter o combate ao racismo na agenda pública durante todo o ano. Mais do que acompanhar estatísticas, é necessário garantir que as vítimas encontrem acolhimento, que as denúncias sejam apuradas e que a igualdade racial se traduza em práticas concretas na sociedade.

Fonte: Diário da Região