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Revista Raça Brasil

Dissonância cognitiva: por que nos preocupamos com o clima e mudamos tão pouco

Em 1957, o psicólogo Leon Festinger descreveu um mecanismo que ajuda a entender por que nos preocupamos tanto com o meio ambiente e mudamos tão pouco. Quando alguém sustenta ao mesmo tempo duas ideias que não combinam, como acreditar que o planeta está em risco e continuar desperdiçando no dia a dia, sente um desconforto interno que ele chamou de dissonância cognitiva. O detalhe decisivo está no que a maioria faz para se livrar desse incômodo, porque mudar o comportamento custa dinheiro, tempo e hábito, e sai mais barato ajustar o pensamento até que a preocupação declarada ocupe o lugar da atitude que não tomamos.

Os números medem esse descompasso com nitidez, e uma pesquisa da consultoria Ipsos apontou que 82% dos brasileiros veem o aquecimento global como uma ameaça séria, mas 67% admitem que gostariam de viver de forma mais sustentável e não fazem as mudanças necessárias na própria rotina. A Confederação Nacional da Indústria captou o mesmo fenômeno por outro ângulo, quando 74% das pessoas se declararam conscientes, mas calcularam que só 32% da população ao redor agia assim. Cada um se enxerga como a exceção correta no meio de uma maioria descuidada, e é essa a dissonância traduzida em estatística.

O mais revelador é como aliviamos esse peso sem mexer na conduta, e um dos caminhos é o crédito moral, a sensação de que separar o lixo ou levar a sacola reutilizável já autoriza a próxima viagem de avião ou a compra por impulso. Outro é diluir a responsabilidade, com o argumento de que a minha parte é insignificante diante das grandes empresas e dos países ricos, o que transfere a culpa e deixa tudo como está. O terceiro, e talvez o mais confortável, é transformar a indignação em discurso, porque me indignar em público com a crise do clima acalma a consciência e não exige nada de mim no dia seguinte. Em todos esses casos, o movimento que Festinger descreveu é o mesmo, o de reescrever a própria história para que ela pareça coerente, de modo que ninguém precise se enxergar como incoerente.

Essas saídas aparecem em gestos banais que quase ninguém associa ao clima, a começar pela pessoa que se diz preocupada e compra mais do que precisa, e uma pesquisa da Embrapa com a FGV mostrou que cada família brasileira joga no lixo cerca de 128 quilos de comida por ano, empurrada em boa parte pelo hábito de estocar, já que 68% afirmam comprar em grande quantidade para manter a despensa cheia. O mesmo vale para deixar a torneira correndo, preferir o carro em trajetos curtos ou ignorar a coleta seletiva. Nenhum desses atos parece grave quando visto sozinho, e é justamente essa aparência inofensiva que os torna fáceis de justificar.

O problema aparece quando esses pequenos ajustes se somam, e a indignação que não vira ação deixa de ser neutra, porque gasta a energia que levaria à mudança e ainda entrega a sensação de que algo foi feito. A própria Ipsos registrou esse desgaste, já que a parcela de brasileiros convencida de que suas atitudes podiam ajudar o meio ambiente caiu de 91% em 2021 para 78% em 2026. Quando cada pessoa espera que a empresa, o governo ou o vizinho comece primeiro, o resultado coletivo é a estagnação, um ambiente em que muito se fala e pouco se altera. O curioso é que essa paralisia convive com um volume recorde de conversa sobre o tema, o que dá a impressão de movimento e ajuda a adiar, mais um ano, a mudança que ninguém quer ser o primeiro a começar.

Empresas e governos apenas repetem, em escala maior, o que fazemos dentro de casa, ao trocar mudança real por anúncio bem produzido. A diferença está no tamanho do orçamento, não na natureza do mecanismo, e por isso cobrar coerência das instituições sem revisar a própria rotina acaba sendo mais uma maneira de aliviar a consciência pela fala.

A saída que Festinger sugere vai na direção contrária ao hábito, porque em vez de fugir do desconforto, ele propõe aproveitá-lo. Esse mal-estar entre o que valorizamos e o que fazemos tem uma utilidade, já que mostra com precisão em que ponto a nossa vida contradiz aquilo que dizemos defender. Quem para de abafá-lo com mais uma declaração de boas intenções e escolhe uma mudança concreta, como cortar o desperdício de comida em casa, separar os próprios resíduos ou não comprar produtos de maneira inconsciente, começa a fechar a distância entre o que diz e o que pratica. O que leva alguém a agir é encarar esse desconforto, não falar sobre ele.