Aos 22 anos, a nigeriana que ganhou destaque nas redes sociais ao recriar desfiles de grandes grifes nas ruas de Lagos fez sua estreia na Chanel durante a Semana de Moda de Paris.
Antes de pisar na passarela da Chanel, Rachel Ojuromi já havia criado a sua própria. Sem os cenários milionários das grandes semanas de moda, a jovem nigeriana transformou as ruas, mercados e espaços populares de Lagos em cenário para vídeos nos quais recriava, à sua maneira, produções inspiradas em algumas das maiores grifes internacionais. Entre elas, justamente a Chanel.
Aos 22 anos, Rachel viu a criatividade que ganhou as redes sociais se transformar em um novo capítulo profissional. Nesta segunda-feira (5), ela fez sua estreia na Chanel durante a Semana de Moda de Paris, atravessando uma das passarelas mais importantes da indústria internacional.
Rachel nasceu e cresceu na Nigéria e começou a conquistar visibilidade com vídeos produzidos em parceria com a amiga, estilista e designer Debby Fasingha. Juntas, elas passaram a reinterpretar referências da alta moda dentro do cotidiano nigeriano. Rachel surgia caminhando pelas ruas com produções elaboradas, passando por mercados, comprando alimentos e circulando entre vendedores e moradores como se estivesse diante das câmeras de uma grande maison.
A força do trabalho estava justamente nesse encontro. De um lado, códigos visuais tradicionalmente associados ao luxo europeu. Do outro, uma Lagos viva, movimentada e profundamente africana. Rachel não tentava transformar sua cidade em Paris. Fazia o contrário: mostrava que Lagos também poderia ser o centro da moda, da criatividade e da narrativa.
Os vídeos começaram a circular internacionalmente e chamaram atenção pelo styling, pela criatividade e pela capacidade de transformar os recursos disponíveis em uma linguagem própria. Uma das recriações do desfile Métiers d’Art da Chanel ganhou repercussão especial e ajudou a ampliar a projeção da jovem nigeriana.
Agora, aquilo que antes Rachel recriava diante das câmeras tornou-se realidade. Na apresentação da coleção primavera/verão 2027 da Chanel, no Grand Palais, ela fez sua estreia oficial na maison francesa. Na passarela, apareceu usando uma produção construída a partir de um dos códigos mais reconhecidos da marca, o tweed, em uma combinação de cinza e amarelo. A escolha ganhou um significado afetivo para a modelo, já que o amarelo é a cor favorita de Debby, amiga que esteve ao seu lado desde os primeiros vídeos produzidos em Lagos.
Rachel também celebrou a possibilidade de aparecer na passarela mantendo características de sua própria identidade. Com tranças e uma beleza natural, contou ter ficado feliz ao perceber que a equipe queria que ela se apresentasse como ela mesma. Para uma jovem africana estreando em uma das maiores maisons do mundo, há um significado importante nisso: chegar a esse espaço sem precisar apagar aquilo que a levou até ele.
Apesar da experiência diante das câmeras, Rachel admitiu que ficou nervosa antes do desfile. Nos bastidores, recebeu apoio de modelos mais experientes, entre elas Anok Yai e Bhavitha Mandava, que a incentivaram a relaxar e aproveitar aquele momento. A emoção chegou antes mesmo de entrar na passarela. Ao perceber a dimensão do que estava vivendo, Rachel chorou. Depois, entrou carregando uma certeza: ela merecia estar ali.
E talvez esse seja um dos aspectos mais importantes de sua história. A estreia não precisa ser contada como a trajetória de uma jovem africana que recebeu permissão para entrar em um universo europeu. Rachel chegou à Chanel depois de construir uma linguagem própria, conquistar público, criar conteúdo e transformar a realidade ao seu redor em matéria-prima para sua criatividade. Paris não inventou Rachel Ojuromi. Paris passou a enxergar o trabalho que ela já fazia em Lagos.
Sua trajetória também ajuda a mostrar uma transformação importante na moda. Durante décadas, o continente africano serviu de inspiração para estilistas e marcas internacionais por meio de suas estampas, tecidos, formas, culturas e estéticas, enquanto profissionais africanos nem sempre receberam o mesmo espaço para contar suas próprias histórias. Rachel pertence a uma geração que começa a modificar essa relação, utilizando as redes sociais para construir plataformas, públicos e narrativas sem esperar necessariamente pela validação dos grandes centros internacionais.
Esse pensamento também aparece na The Process Africa, plataforma criada por Rachel para documentar e ampliar a visibilidade de jovens profissionais africanos ligados à moda, ao cinema e às artes visuais. O projeto parte da compreensão de que existe uma geração de criadores no continente produzindo trabalhos relevantes e acompanhando as mesmas referências globais, mesmo sem ter acesso aos mesmos recursos disponíveis em centros como Paris, Londres, Milão ou Nova York.
Por isso, resumir a trajetória de Rachel dizendo apenas que ela “viralizou” seria deixar de lado boa parte do caminho. A própria modelo rejeita a ideia de que seu sucesso tenha acontecido da noite para o dia. Sua chegada à Chanel foi construída por uma sequência de ideias, tentativas, produções, vídeos e oportunidades que foram se acumulando.
Antes de estar no Grand Palais, Rachel estava em Lagos imaginando como seria fazer parte daquele universo. Em vez de apenas assistir aos desfiles e esperar por uma oportunidade, decidiu criar sua própria versão. Reuniu amigos, buscou referências, produziu roupas, escolheu cenários e colocou a câmera para funcionar. Quando a passarela internacional ainda parecia distante, fez das ruas de sua cidade a própria passarela.
Agora, Rachel começa a ocupar espaços em importantes centros internacionais da moda, mas Lagos continua sendo parte essencial de sua identidade criativa. E talvez esteja aí uma das mensagens mais bonitas de sua trajetória: chegar aos grandes centros não precisa significar abandonar o lugar de onde se veio.
A jovem que caminhava pelos mercados nigerianos vestindo suas próprias interpretações da alta moda não precisou se transformar em outra pessoa para chegar à Chanel. Foi justamente sua identidade, criatividade e capacidade de construir algo a partir de sua própria realidade que chamaram a atenção do mundo.
De Lagos para Paris, Rachel Ojuromi não esperou encontrar uma passarela. Criou a sua própria até chegar a uma das maiores do mundo.