Saiba mais sobre o preconceito racial no balé

 

TEXTO: Redação | FOTO: Roselha Lopes | Adaptação web: David Pereira

O preconceito racial no balé | FOTO: Roselha Lopes

O preconceito racial no balé | FOTO: Roselha Lopes

A questão racial, mesmo quando não se apresenta de forma explícita, permeia a situação como um todo, afinal quantos bailarinos negros profissionais estão nos corpos de dança dos principais balés do mundo? “Eu tinha sete anos em 1972, já fazia balé desde os cinco num clube desportivo da prefeitura. Fui fazer o teste do Theatro Municipal e não passei. Eles alegaram que a questão era o fato de meus joelhos não se encostarem. Depois fiquei sabendo de inúmeras bailarinas com problemas de formação nas pernas - até com uma perna mais curta que a outra. Então pensei: ‘será que fui rejeitada por ser negra?’”, relata Jucélia Olivia Araújo, apreciadora de Balé Clássico até os dias de hoje. Como ela, muitas crianças negra acabaram desistindo da atividade por terem sido vítimas de discriminação.

Na história de Michaela DePrince, nascida em Serra Leoa, mas adotada nos EUA, o balé surge quase como uma redenção. Aos oito anos, já praticante de balé, estava escalada para interpretar Marie em “O Quebra Nozes”, porém soube que alguém estaria dançando sua parte, uma vez que “as pessoas não estão prontas para umabailarina negra”. Ela quase desistiu de seu sonho e só o manteve porque pôde assistir a atuação de outra bailarina negra: Heidi Cruz.

No Brasil, apesar dessa modalidade ter tido sua primeira exibição ainda no século XIX - com o espetáculo de Balé Clássico apresentado no Real Teatro de São João, no Rio de Janeiro, em 1813 -, sua prática tornou-se mais expressiva a partir de 1913 e depois com Ana Pavlova e seu corpo de baile entre 1918 e 1919. No entanto, somente em 1927 foi fundada a escola de dança do Theatro Municipal por Maria Olenewa.

A primeira bailarina negra no país foi Mercedes Baptista, homenageada pela Escola de Samba Vila Isabel em 2009, então com 85 anos. Uma mulher de fibra e de coragem, que se tornou um marco na dança brasileira ao passar pelo exigente concurso de ingresso no corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Descobriu sua paixão pela dança após os 18 anos. Em sua biografia relata que não foi avisada da data da prova para mulheres, por isso mesmo fez a prova com os homens: “Como eu tinha facilidade para saltar a prova não foi difícil para mim”. Assim, em 18 de março de 1948, iniciou sua luta pela imposição do negro como bailarino profissional, tendo como aliado o também bailarino negro Raul Soares.

A história de Mercedes Baptista é contada no livro “A Criação da Identidade Negra na Dança”, de Paulo Melgaço. Essa é a motivação, funciona como subtexto de toda atuação. O preconceito, a discriminação e o racismo não vão desaparecer de uma hora para outra e, a cada vitória, em cada setor novo desbravado, o afrodescendente estará em combate por sua cidadania, direitos e dignidade. Apesar de atuarem sobre o indivíduo, atingem o grupo social. Por isso, a resposta, em forma de esperança e grande luta, está na persistência de cada indivíduo na busca de seus próprios sonhos.

 

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