Docente de escola particular de Maceió comparou um estudante negro de 13 anos a um chimpanzé diante da turma. Adolescente passou a ser alvo de chacotas e chegou a resistir a voltar para a escola.
A sala de aula deveria ser um lugar de aprendizado, proteção e construção de possibilidades. Para um adolescente negro de apenas 13 anos, no entanto, esse espaço se transformou em cenário de uma violência racial que teve consequências para além daquele momento.
A Justiça de Alagoas condenou um professor a sete anos e três meses de prisão pelos crimes de injúria racial e corrupção de menores após ele comparar um estudante negro a um chimpanzé durante uma aula em uma escola particular de Maceió.
Além da pena de prisão, o docente foi condenado ao pagamento de uma indenização mínima de R$ 15 mil pelos danos causados à vítima.
O episódio aconteceu no dia 12 de fevereiro de 2026, em uma instituição de ensino localizada no bairro Benedito Bentes.
De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público de Alagoas (MPAL), o professor ministrava uma aula para uma turma do 8º ano quando um dos estudantes mostrou um caderno com a imagem de um chimpanzé.
Ao ser questionado sobre com quem o animal se parecia, o docente apontou para o adolescente negro.
A atitude provocou risadas entre os demais estudantes.
Mas, para o menino que estava no centro daquela situação, não havia nada de engraçado.
A violência continuou depois da aula
O episódio não terminou quando o sinal tocou.
Em depoimento, o adolescente contou que, nos dias seguintes, passou a ser alvo de chacotas dos colegas. A situação o abalou profundamente e provocou resistência em retornar à escola.
O jovem só conseguiu voltar às aulas depois de saber que o professor havia sido afastado da instituição.
Outros estudantes presentes na sala confirmaram durante a investigação que o professor apontou para o adolescente após a pergunta relacionada à imagem do chimpanzé. Eles também relataram que o colega ficou visivelmente triste depois do episódio.
No procedimento disciplinar instaurado pela própria escola, o professor reconheceu ter apontado para o estudante, embora tenha negado intenção racista.
A Justiça, no entanto, acolheu a acusação apresentada pelo Ministério Público.
Quando a violência parte de um educador
Existe uma dimensão particularmente grave nesse caso.
A violência racial não partiu apenas de um adulto contra uma criança. Ela ocorreu dentro de uma instituição de ensino e foi praticada por alguém investido justamente da responsabilidade de educar.
Para o Ministério Público, essa condição aumentou a gravidade da situação.
Um professor ocupa uma posição de autoridade e referência diante de seus alunos. Suas palavras e atitudes podem contribuir tanto para combater preconceitos quanto para legitimá-los.
Nesse caso, segundo a acusação acolhida pela Justiça, o comportamento do docente ainda estimulou a participação dos demais estudantes na humilhação do adolescente.
Foi justamente essa circunstância que também fundamentou a condenação pelo crime de corrupção de menores.
O promotor Ricardo Libório chamou atenção para a responsabilidade das instituições educacionais no enfrentamento à discriminação.
“A escola não pode ser espaço de reprodução ou naturalização do racismo”, afirmou o representante do Ministério Público.
Racismo não pode ser tratado como brincadeira
A comparação entre pessoas negras e macacos carrega uma longa e violenta história racista.
Durante séculos, discursos pseudocientíficos e representações desumanizantes foram utilizados para tentar colocar populações negras em uma posição de inferioridade e justificar escravização, segregação e outras formas de violência.
Por isso, quando uma criança negra é associada a um animal por causa de sua aparência ou de sua raça, não estamos diante de uma simples “piada”.
Existe uma história por trás dessa violência.
E existem consequências.
No caso do adolescente de Maceió, elas apareceram rapidamente: vergonha, tristeza, chacotas dos colegas e dificuldade para retornar ao ambiente onde deveria se sentir protegido.
É também por isso que episódios de racismo durante a infância e adolescência não podem ser minimizados.
A criança que sofre a violência precisa encontrar adultos e instituições capazes de reconhecer aquilo que aconteceu, acolhê-la e agir.
Educação antirracista também é responsabilidade dos adultos
O caso chama atenção para uma discussão que precisa ultrapassar datas comemorativas e projetos pontuais.
Educação antirracista não significa apenas falar sobre personalidades negras em novembro ou incluir conteúdos sobre África no currículo.
Significa também preparar professores e profissionais da educação para reconhecer preconceitos, enfrentar situações discriminatórias e compreender o impacto que suas próprias palavras podem produzir.
Significa construir um ambiente no qual uma criança negra não precise desenvolver estratégias para sobreviver emocionalmente à escola.
E significa ensinar aos demais estudantes que humilhar alguém por sua cor não é entretenimento.
Segundo o Ministério Público, a escola afastou o professor depois do episódio. O adolescente conseguiu então retornar às aulas.
A condenação judicial não apaga o constrangimento vivido por aquele menino diante dos colegas. Tampouco elimina as chacotas que vieram depois.
Mas estabelece uma mensagem que precisa ser repetida dentro e fora das escolas:
racismo não é brincadeira, e a sala de aula jamais pode ser um lugar onde ele encontre autorização para continuar existindo.