Mulheres negras são 28,5% do Brasil. Mais de 60 milhões de pessoas, o maior grupo demográfico do país, maior que mulheres brancas, homens brancos e homens negros juntos. E, no entanto, apenas 0,4% nas presidências e diretorias das 500 maiores empresas, segundo o Instituto Ethos.
Na área tecnológica, onde esta semana Fabiana Nogueira Feitosa acabou de ser como chief information officer (CIO) para a América Latina, integrando o comitê diretivo da empresa no Brasil não existe precedentes. Não é falta de talento, é projeto de exclusão. Por isso a notícia publicada na revista RAÇA publicação direcionada ao público negro sobre Fabiana não é uma nota de diversidade. É uma denúncia estatística do tamanho do rombo.
A Danone promoveu promoveu uma mulher com mais de 20 anos de experiência em dados, analytics e inteligência artificial, sete deles dentro da Danone, liderando até então, a partir dos Estados Unidos, toda a estratégia de dados e IA para as Américas. Currículo que em um homem branco seria chamado de brilhante. Nela, virou debate: ela é negra mesmo? Precisava destacar? O foco saiu do que ela fez e foi para o que ela é. É o racismo corporativo operando em sua forma mais sofisticada: questionar a legitimidade da presença, não a competência.
É aqui que mora a pressão desumana sobre a liderança negra feminina. Liderar já é viver sob pressão permanente do cargo. Para mulheres negras, essa pressão triplica. Há a pressão da entrega, a pressão da sociedade branca que cobra três vezes mais para aceitar e a pressão da própria comunidade negra que, traumatizada por séculos de porta fechada, exige que sejamos infalíveis para não fechar a porta para as próximas.
Fabiana não pode errar, não pode ser mediana, não pode ser apenas boa. Ela tem que ser excepcional para ser considerada adequada. É um fardo que nenhum executivo branco carrega.
O que mais chama atenção nos milhares de comentários não é a ignorância, é a conveniência. Omitir que Fabiana é negra é a estratégia de quem quer manter a meritocracia como mito. Se não falamos de cor, podemos fingir que o jogo é justo. Mas se o jogo fosse justo, não precisaríamos contar nos dedos as CIOs negras na América Latina. Ainda sobrariam dedos. Ressaltar que ela é negra não diminui seu mérito, revela o tamanho do obstáculo que ela superou e que continua lá para as outras 60 milhões. Não é identidade, é dado.
Por isso, não se deve pedir desculpas por destacar sua cor. O destaque é porque é raro, porque é histórico e porque é necessário. Cada vez que uma Fabiana rompe, ela não sobe sozinha. Ela arrasta uma estrutura inteira. A pergunta não é se ela merecia destaque por ser negra. A pergunta que o Brasil corporativo precisa responder é: por que, em 2026, ainda são tão poucas que precisam comemorar cada uma como se fosse a primeira?
