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Revista Raça Brasil

Resenha do filme “Uma Batalha Após a Outra”: a fetichização das relações de poder

Por Enzo Santos

“Uma Batalha Após a Outra” é um filme assinado em roteiro e em direção por Paul Thomas Anderson e estrelado por Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Chase Infiniti, Teyana Taylor e Benicio del Toro.

Ambientado numa pseudo-distopia em que os Estados Unidos é governado por um regime autoritário, o filme acompanha um casal (Leonardo DiCaprio e Teyana Taylor) que se vê obrigado a se afastar de seu grupo revolucionário quando sua filha nasce.

Teyana Taylor interpreta uma personagem impetuosa, que não aceita ser subjugada (Foto: Divulgação / Warner Bros. Pictures)

Após a sequência inicial em que os agentes militares são submetidos a uma ação da resistência que visa libertar imigrantes detidos, é iniciada uma caçada por parte do Coronel Steven Lockjaw (Sean Penn), com o objetivo de exterminar todos os membros do grupo revolucionário.

A princípio o enredo explora parte dos planos que o grupo de rebeldes planejava e as ofensivas realizadas com o intuito de sabotar ações governamentais. Logo são postos frente a frente os personagens quase opostos de Sean Penn e de Teyana Taylor — a tensão de ódio e desprezo por ambas as partes sustenta a ideia de percepção de diferentes papéis sociais. Quando Perfidia (Teyana Taylor) subverte a lógica da dominação exercida pelo homem branco, o personagem de Sean Penn acaba por entrar em um estado de fetichização do jogo do poder, sentindo veladamente prazer ao assumir uma posição submissa.

Sean Penn interpreta o Coronel Steven, um supremacista branco (Foto: Reprodução / Warner Bros. Pictures)

É justamente a questão do fetiche um dos pontos mais intrigantes e que mais enriquecem a contradição que “Uma Batalha Após a Outra” se propõe a desenvolver. O fato de que o Coronel é um supremacista branco e ainda assim fazer da imagem da mulher negra objeto de seu desejo levanta nuances psicológicas do personagem e esclarece parte de suas intenções ao longo da narrativa.

As partes mais envolventes da obra se passam após o salto temporal de 16 anos, quando a filha Willa (Chase Infiniti) passa a ser a condutora da narrativa. O clima de urgência se faz cada vez mais presente a partir do momento em que a falta de cautela faz com que a perseguição se reinicie com uma motivação ainda mais pessoal.

(Foto: Reprodução / Warner Bros. Pictures)

As atuações potencializam uma à outra, com Leonardo DiCaprio e Chase Infiniti formando uma ótima e simpática dinâmica de pai e filha, em oposição com a persona antipática e intimidadora interpretada ferozmente por Sean Penn. DiCaprio ainda sustenta em boa parte do filme um elemento por ele muito bem dominado: a ansiedade — e justamente tal elemento entra em cômica contradição com a tranquilidade absurda sustentada por Benicio del Toro em seu personagem.

A violência e a opressão são alguns dos alicerces narrativos de “Uma Batalha Após a Outra”. Para além do jogo de domínio de poder social com cunho racial, também são exploradas outras questões importantes que refletem a realidade contemporânea, como a questão dos imigrantes que necessitam se refugiar nos EUA. O terror e o colapso é então instaurado quando o Estado arquiteta operações que visam fragmentar toda uma comunidade; o senso de coletividade altruísta despertado por pessoas como o Sensei (Benicio del Toro) é o que realmente ampara a comunidade, principalmente quando se tem uma perseguição injusta, sustentada por burocracias desumanas. A união e o acolhimento são os meios de se resistir e de se protegerem uns aos outros.

O diretor Paul Thomas Anderson é reconhecido pela profundidade e complexidade com que escreve e desdobra seus personagens, e isso transparece em seu novo filme, mesmo que com personagens mais “fáceis de se absorver”. Apesar de não se comparar em questão de tom e de densidade com outros filmes do cineasta — como “Boogie Nights: Prazer Sem Limites” (1997) e “Magnólia” (1999) —, “Uma Batalha Após a Outra” revela um Paul Thomas Anderson contemporâneo, ciente do potencial inerente às histórias de civis que lutam, com um filme que dialoga com a atualidade.

(Foto: Reprodução / Warner Bros. Pictures)