Reconhecimento internacional inclui o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, a Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador, e a Serra da Barriga, em Alagoas.
Três espaços fundamentais para a história da população negra brasileira passaram a integrar uma rede internacional da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) dedicada à memória da escravidão e do tráfico de pessoas escravizadas. A inclusão do Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, da Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador, e da Serra da Barriga, em Alagoas, foi anunciada em outubro de 2026.
A iniciativa busca fortalecer a preservação desses locais, ampliar o conhecimento sobre a escravidão e valorizar as diferentes formas de resistência construídas pela população negra. Com os novos integrantes, o Brasil passa a contar com seis representantes na rede, criada em 2024 para promover ações educativas, pesquisa e cooperação internacional.
Cais do Valongo preserva vestígios do tráfico de africanos escravizados
Localizado na região portuária do Rio de Janeiro, o Cais do Valongo foi um dos principais pontos de desembarque de africanos escravizados nas Américas. Construído em 1811, o local conserva vestígios arqueológicos que ajudam a documentar a dimensão do tráfico transatlântico e a violência praticada contra pessoas trazidas à força para o Brasil.
O sítio já havia recebido o título de Patrimônio Mundial da UNESCO em 2017. A nova inclusão integra o local a uma rede específica voltada à memória histórica da escravidão e às iniciativas de preservação e educação.
Sociedade Protetora dos Desvalidos representa a organização negra na Bahia
Em Salvador, a Sociedade Protetora dos Desvalidos foi fundada em 1832 por homens negros livres. A instituição tornou-se uma referência histórica de solidariedade, apoio mútuo e organização coletiva da população negra em um período marcado pela escravidão e por profundas restrições de direitos.
Sua trajetória evidencia como pessoas negras construíram redes de proteção e mobilização diante das desigualdades raciais e sociais. A permanência da entidade ao longo dos séculos também representa uma parte importante da história da organização civil negra no Brasil.
Serra da Barriga mantém viva a memória do Quilombo dos Palmares
Em União dos Palmares, Alagoas, a Serra da Barriga está associada à história do Quilombo dos Palmares, uma das experiências mais emblemáticas de resistência à escravidão no país. O território abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, dedicado à preservação e à divulgação dessa história.
A inclusão na rede internacional amplia a visibilidade de um espaço ligado à luta por liberdade, autonomia e organização comunitária. A memória de Palmares também desafia narrativas que apresentam a população negra apenas como vítima da escravidão, destacando seu protagonismo na construção de estratégias de resistência.
Reconhecimento precisa caminhar com preservação e educação
Criada no âmbito do programa Rotas dos Escravizados: Resistência, Liberdade e Patrimônio, a rede da UNESCO incentiva o intercâmbio entre os locais participantes, o desenvolvimento de pesquisas e a criação de atividades educativas. A proposta também busca ampliar o diálogo entre comunidades e instituições responsáveis pela preservação da memória.
O reconhecimento internacional reforça a importância de transmitir essas histórias às novas gerações e de enfrentar o apagamento da contribuição negra para a formação brasileira. A escravidão não é apenas um capítulo do passado: seus efeitos permanecem relacionados ao racismo estrutural e às desigualdades que atravessam a sociedade.
É importante destacar que a entrada na rede de memória da UNESCO não equivale, por si só, à concessão do título de Patrimônio Mundial. Trata-se de uma iniciativa internacional de cooperação, valorização histórica e educação.
A inclusão dos três espaços representa, assim, mais do que uma homenagem ao passado. É uma oportunidade de fortalecer a preservação da memória negra e reconhecer a contribuição da população afro-brasileira para a história do país.
Fonte: Agência Brasil e Ministério da Cultura.