Nascida, no território quilombola de Mangueiras, na Ilha do Marajó, em 1951, Zélia Amador de Deus, nos deixou no último dia 08 de setembro de 2026.
Desde o seu nascimento, Zélia viveu as agruras e dificuldades da maioria da população negra brasileira – pobreza, exclusão e discriminação. Afinal, era filha uma empregada doméstica, mãe solteira (numa época em que o moralismo e o racismo caminhavam lado a lado).
Ao fazer sua passagem para outro plano, Zélia Amador de Deus, deixa um legado, singular e marcante na luta pela promoção da igualdade racial no Brasil. Ela é de uma geração que brigou literalmente para ser reconhecida. Os embates eram ferozes, as interdições mais ainda.
Zélia fez parte de uma geração que apesar de vitoriosa, pagou um preço alto pela sua coragem e ousadia. Até mesmo dentro do movimento negro existiam preconceitos e discriminações quanto ao papel da mulher. O mesmo ocorria quanto a intelectualidade negra.
Aliás, esse preconceito ainda está presente até os dias atuais e causando enorme prejuízos ao avanço da nossa luta. Acreditem, mas ainda tem gente com discurso de que a única coisa que adianta é estar no “gueto”, pensar sobre o “gueto” e falar sobre o “gueto”, como se a sociedade brasileira fosse uniforme e que a população negra não fosse plural.
Mulheres como Zélia, Beatriz Nascimento, Luiza Bairros, Makota Valdina (já falecidas) e outras que continuam na luta como Sueli Carneiro, Edna Roland e Conceição Evaristo, desafiaram e desafiam não apenas o status quo da branquitude, como também o conservadorismo do movimento negro.
Mais que isso, apesar de toda a contribuição que deram para o avanço da luta de combate ao racismo e a qualificação do debate sobre o tema, as dificuldades ainda persistem mesmo entre os jovens intelectuais negros/as que ignoram ou desrespeitam esse importante legado, imaginando que assim estão inventando a roda.
Por isso mesmo, é importante destacar que Zélia também teve uma trajetória acadêmica importante. Além de professora de História da Arte, Estética e História e Teoria do Teatro, também ministrou aulas sobre Cultura e Sociedade, Políticas Públicas, Raça e Etnia, Movimentos Sociais Negros, coroando sua presença na Academia, com o cargo de vice-reitora da UFPA, no período de 1993/1997.
E ainda se deu ao luxo de ser escritora, atriz, diretora de teatro e uma das mais importantes militantes dos direitos da população negra no país. Foi uma das fundadoras do CEDENPA (Centro de Estudos e Defesa do Negra do Pará/1980) que veio a ser uma das mais poderosas instituições do movimento negro brasileiro em defesa das comunidades quilombolas. Além de ter participado de inúmeras instituições e movimentos a exemplo Grupo de Estudos Afro-Amazônicos (GEAM), do qual foi uma das organizadoras.
Por conta da sua atuação, foi homenageada inúmeras vezes e por inúmeras instituições no estado do Pará, onde residia e militava, a exemplo do título de Honra ao Mérito do Conselho Estadual de Segurança Pública do Estado do Pará, em 2014, Comenda Mãe Doca, da Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa), em 2015, título de professora emérita da UFPA, em 2019, Prêmio de Direitos Humanos da BrazilFoundation’s Human Rights Award, em outubro de 2021.
Enfim, Zélia representa a força de uma mulher negra que transformou educação, cultura, universidade e militância em instrumentos de luta contra o racismo e de construção de uma sociedade mais justa.
Toca a zabumba que a terra é nossa!
