Nunca um verso foi tão adequado à realidade brasileira do que o paradigmático “Navegar é preciso” de Fernando Pessoa. Não à toa, o ano de 2017 foi tão difícil, conturbado onde a agressividade e a violência pontuaram de forma gritante. A forma acintosamente antidemocrática com que apearam a Presidente Dilma Roussef do governo, se fez presente sem dó nem piedade e o povo é quem está pagando a conta.

E mais uma vez, a conta mais pesada ficou a cargo dos pretos e pobres. São eles que estão arcando de forma brutalmente desigual com os custos dessa aventura. Nunca se assassinou tanto neste país, (61 mil mortos até o momento). E destes, oitenta por cento são negros e o que é pior, mais de 30 mil são jovens.  A situação está tão grave que a ONU criou o programa “Vidas Negras” para tentar dar um basta neste verdadeiro extermínio da juventude negra que está ocorrendo no Brasil.

Também em 2017, o racismo e a intolerância religiosa caminharam de braços dados atingindo duramente a população negra brasileira. E aí, não importou se era rico ou pobre, anônimo ou celebridade, criança ou idoso. A estupidez racista se fez presente nas redes sociais, nos campos de futebol, no mercado de trabalho (a maioria dos desempregados são negros) e até mesmo na maior rede televisiva brasileira – a rede Globo.

Mas, também em nosso pedaço, duas discussões afloraram de maneira incômoda, para dizer o mínimo, em 2017. Falo da crítica que se amplia a cada dia ao “racialismo” de pequenos grupos do movimento negro, viralizada com o artigo do intelectual baiano Antônio Rizério na Folha de São Paulo e o conflito aberto no Terreiro de Candomblé mais importante do país – o Ilê Axé Opô Afonjá e a sua Yalorixá Mãe Stella de Oxóssi.

E não adianta querermos empurrar estas discussões para debaixo do tapete, pois não as superaremos sem discuti-las à luz do dia. São temas difíceis e complexos, mas que teremos que enfrenta-los a céu aberto se quisermos adentrar o século XXI, com condições mínimas  de superação destes desafios.

A primeira diz respeito ao campo da política, da necessidade imperiosa de ampliar nossas alianças para vencer o racismo, de compreender que a luta contra o racismo não pode se transformar na luta pela afirmação da cor da pele, (seja ela qual for), até porque o objetivo maior de todo antirracista deve ser a igualdade plena e não a supremacia de uma raça sobre a outra.

A segunda diz respeito ao campo da cultura. E envolve desafios magistrais, mas que não poderão ser ignorados: Como o Candomblé irá se relacionará com os novos paradigmas da pós- modernidade? Como dialogar e estabelecer novos parâmetros entre o sagrado e o profano, entre o individual e o coletivo, entre o público e o privado nas instituições religiosas de matriz africana? Neste sentido, vejam a afirmação de Mãe Stella de Oxóssi.

 “Em minha certidão de nascimento e em minha identidade consta Maria Stella de Azevedo Santos, não Mãe Stella de Oxóssi. O papa Bento XVI entregou, corretamente, seu cargo quando percebeu as suas condições físicas; eu, ainda, não estou entregando meu posto, estou me afastando pelo fato de minha voz não ser mais ouvida por aqueles que durante anos pregaram a hierarquia.” “Sou Maria Stella de Azevedo Santos: um ser humano, que merece respeito.”.

Inspirado em Mãe Stella, desejo que em 2018,  tenhamos a mesma sabedoria e  coragem no enfrentamento das intempéries que se avizinham. Até porque, navegar é preciso e viver mais ainda.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

Zulu Araujo

Foi Presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

 

 

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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