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Inclusão em tempos de retrocesso: o teste de integridade corporativa

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PMR Advocacia

Fabiano Machado da Rosa: Advogado especialista em Compliance Antidiscriminatório e Fundador da PMR Advocacia e Paulo Petri é Advogado, mestre em ciência política, fundador da PMR Advocacia.

Mesmo diante de resistências políticas e cortes, empresas comprometidas com o futuro mantêm e ampliam suas políticas de diversidade, equidade e inclusão.

Por PMR Advocacia

Nos últimos anos, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, testemunhamos retrocessos nas políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI). Iniciativas e programas antes celebrados passaram a enfrentar resistências políticas e cortes orçamentários. Em alguns lugares, programas de treinamento e recrutamento inclusivos foram limitados por novas normas; em outros, departamentos inteiros dedicados à diversidade foram desmontados. Esse contexto adverso levanta uma indagação essencial: até que ponto o compromisso com a equidade racial era sólido — ou seria a DEI apenas uma tendência passageira?

Nos EUA, após um auge de atenção à justiça racial em 2020, viu-se um refluxo preocupante. Decisões judiciais recentes minaram políticas afirmativas, e legislaturas estaduais buscaram restringir iniciativas de diversidade nas universidades. No setor privado, muitas corporações frearam seu ímpeto: um levantamento de 2023 revelou que quase 40% dos postos de trabalho em DEI foram eliminados nos cortes de pessoal – um índice muito superior ao de outras funções. Em paralelo, orçamentos dedicados à inclusão foram reduzidos e a contratação de profissionais diversos desacelerou. Para se ter ideia, apenas 1,6% dos CEOs das 500 maiores empresas americanas são negros — uma proporção inalterada nos últimos anos.

No Brasil, a situação não foi menos desafiadora. Mudanças de orientação política arrefeceram o apoio institucional às agendas de equidade racial. Áreas governamentais antes dedicadas ao combate à desigualdade foram esvaziadas. Em certas corporações, núcleos de diversidade foram reduzidos ou desativados, e programas promissores perderam fôlego. O reflexo desse cenário se evidencia nos números: embora as pessoas negras sejam maioria da população brasileira (56%), elas ocupam apenas cerca de 5% dos cargos de liderança nas 500 maiores empresas do país. Trata-se de uma disparidade gritante que evidencia o longo caminho rumo à equidade.

Esse momento, porém, longe de justificar desistência, vem funcionando como um teste de integridade institucional para o setor privado. As promessas de inclusão feitas pelas organizações estão à prova: empresas que retrocedem diante da pressão revelam que talvez tratassem DEI apenas como discurso, enquanto aquelas verdadeiramente comprometidas reforçam a prática da inclusão mesmo na adversidade. De fato, apesar desses retrocessos, empresas sérias e com visão sustentável de longo prazo não apenas mantêm, como ampliam suas políticas de DEI. São corporações que entendem que diversidade não é mero adereço de relações públicas, mas sim elemento central de inovação e competitividade. Em 2023, uma pesquisa nacional mostrou crescimento no número de companhias com estruturas dedicadas à diversidade — 72% das empresas consultadas declararam possuir uma área específica de DEI, frente a 64% em 2020. Muitas destinaram recursos adicionais para promover inclusão, mesmo quando cortar custos seria mais fácil. Isso demonstra que o compromisso autêntico persiste mesmo sob tempestades.

É preciso, portanto, reconhecer e enaltecer as empresas que tratam a inclusão como valor inegociável. Em meio a ventos contrários, elas demonstram que o compromisso com a diversidade é parte de sua identidade e estratégia de longo prazo. Esses líderes corporativos veem, na pluralidade de perspectivas, um motor indispensável de criatividade e competitividade. Ao valorizar talentos de origens diversas, cultivam equipes mais inovadoras e capazes de navegar incertezas. Mais que isso, contribuem para uma sociedade mais justa, reduzindo barreiras históricas e inspirando outras instituições a fazer o mesmo. Em última instância, a mensagem é otimista: as empresas verdadeiramente comprometidas com o futuro continuam apostando na inclusão como motor de inovação, resiliência e justiça social.

[Os textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Raça].

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