Atriz cobra representatividade negra e questiona estereótipos na teledramaturgia brasileira
Taís Araújo, protagonista do remake de “Vale Tudo”, não poupou críticas à trajetória de sua personagem, Raquel Accioli. A atriz, defensora voraz da representatividade negra na mídia, revelou à revista “Quem” que foi surpreendida com a decisão de retornar Raquel à sua origem humilde, vendendo sanduíches na praia, após momentos de ascensão econômica e social.
“Confesso que fiquei triste e frustrada. Quando vi aquilo, falei: ‘Ué, vai voltar para a praia, gente'”, disse Taís. A expectativa inicial era que a personagem seguisse uma curva ascendente, servindo de exemplo de sucesso para mulheres negras, algo ainda raro na teledramaturgia brasileira.
O descontentamento da atriz não se limita à trama de ficção. Ela evidencia um problema estrutural na televisão: histórias de mulheres negras muitas vezes são contadas a partir da escassez, do sofrimento ou do retrocesso. De acordo com Taís, o público negro brasileiro está pronto para absorver narrativas que mostrem ascensão social e empoderamento, mas a produção hesita diante dessa possibilidade, reforçando estereótipos e limitando o potencial da personagem. Ao recusar a trajetória de poder de Raquel, a narrativa mantém um padrão histórico de invisibilidade e sub-representação.
O ‘drama’ da representatividade
Mesmo diante da limitação do roteiro, Taís mantém um compromisso firme com Raquel. Ela ressalta que a personagem representa muitas mulheres negras que trabalham incansavelmente para sustentar suas famílias e conquistar seus objetivos.
“A Raquel levanta, trabalha, não fica chorando. É o que as mulheres desse país fazem”, afirma a atriz. Esse gesto de defesa evidencia que a narrativa poderia ter sido muito mais do que um drama de sobrevivência: poderia ter sido uma lição de empoderamento e representatividade.
Além disso, Taís questiona a escolha narrativa sob a perspectiva racial: por que, em um país marcado pela desigualdade racial, a personagem negra mais central não pode ascender plenamente? Por que ela deve retornar à base da pirâmide social, mesmo após provar competência, dedicação e sucesso? Essas perguntas não são retóricas. Elas refletem um debate sobre quem tem direito à vitória e à visibilidade na ficção brasileira, e como a mídia influencia a percepção do público sobre mulheres negras.
A reação do público nas redes sociais reforça a crítica de Taís. Muitos espectadores expressaram frustração, apontando que a trama perpetua uma visão limitada das mulheres negras. Alguns chegaram a sugerir que a escolha do enredo reflete preconceito estrutural, evidenciando como a indústria cultural ainda hesita em oferecer protagonismo pleno para negros. Esse debate vai além de Vale Tudo: é uma discussão sobre como as narrativas moldam valores sociais e expectativas sobre raça, gênero e poder.
Mulheres negras na pirâmide social
A atriz também levanta outro ponto crucial: a força das mulheres na base da pirâmide social. Raquel, mesmo na adversidade, demonstra coragem, resiliência e trabalho duro. Ela se levanta, enfrenta obstáculos e mantém dignidade. Taís destaca cinco elementos que poderiam ter transformado a trajetória da personagem em um modelo de empoderamento:
- Ascensão econômica consistente, sem retrocessos artificiais.
- Conflitos éticos e estratégicos com antagonistas, mostrando inteligência e poder de decisão.
- Relações de liderança e influência social, reforçando protagonismo negro.
- Visibilidade positiva de mulheres negras no mercado e na mídia.
- Representação realista, mas inspiradora, da mobilidade social e das conquistas possíveis.
Esses elementos não apenas dariam profundidade à personagem, mas também enviariam uma mensagem de esperança e reconhecimento para o público negro. Ao não adotá-los, a narrativa reforça velhos padrões, como se mulheres negras nunca pudessem ocupar espaços de destaque ou manter conquistas duradouras.
Taís Araújo ressalta ainda que seu desabafo não é só sobre Raquel, mas sobre a responsabilidade da mídia. A televisão tem o poder de moldar percepções e influenciar comportamentos. Mostrar mulheres negras ascenderem, terem poder e protagonismo, é uma forma de combater estereótipos e inspirar a audiência. Ao limitar essa trajetória, a teledramaturgia perde uma oportunidade histórica de mudança.
O desabafo de Taís Araújo é, portanto, um alerta: narrativas inclusivas não são apenas desejáveis, são urgentes. É hora de construir histórias que representem com autenticidade a diversidade social e racial do país, oferecendo modelos positivos para todos. Raquel poderia ser mais do que uma sobrevivente; poderia ser símbolo de ascensão, poder e justiça social.
Essa publicação é fruto de uma parceria especial entre a Revista Raça Brasil e o Fórum Brasil Diverso, evento realizado pela Revista Raça Brasil nos dias 10 e 11 de novembro, que celebra a diversidade, a cultura e a potência da música negra brasileira. Não perca a oportunidade de participar desse encontro transformador — inscreva-se já http://www.forumbrasildiverso.org