Quando vivo, o escritor e filosofo italiano, Umberto Eco cunhou uma expressão lapidar sobre os estragos que as redes sociais estavam produzindo  em tempos de pós modernidade. Afirmou ele: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma caneca de vinho sem causar dano a coletividade”. Mal sabia  ele de que não apenas os imbecís iriam assolar as redes sociais, que tanta esperança trouxe nos seus primeiros anos de vida para a ampliação do diálogo e o estreitamento das relações humanas entre os viventes do planeta terra.

Refiro-me a verdadeira legião de representantes das patologias mais cruéis e nocivas, que tem se apresentado nas redes sociais ultimamente: homofobias, misogenias,  psicopatias e intolerâncias  de todas as ordens, tem se multiplicado  nas redes sociais com tal vitalidade e intensidade, destilando ódio, intolerâncias e maldades de todos os tipos e modos que tem assustado até mesmo o mais pessimista dos pessimistas. E dentre estes doentes sociais, há um caso mais especial ainda que são os racistas. É impressionante a onda racista que está assolando o mundo no início deste século, espalhando-se como verdadeira praga dos tempos modernos.

Se tomarmos como exemplo a sociedade brasileira, herdeira de um histórico dos mais nefastos no campo da igualdade racial, haja visto que nosso país conviveu com o crime de lesa humanidade - a escravidão - durante quase quatro séculos, esta erva daninha, chamada de racismo, tem se espalhado como uma praga e causado estragos fenomenais. Senão vejamos:

Recentemente um grande astro televisivo, o jornalista William Waak, destilou o seu preconceito racial, com o já famoso “Isto é coisa de preto” e reavivou de forma grotesca, este modo arcaico de representação do racismo, que é o de responsabilizar os negros sobre tudo aquilo de errado que ocorre em nossa sociedade. Não bastasse, essa estupidez verborrágica, vigorosamente combatida por outros tantos milhões de brasileiros, um comediante medíocre do programa de Danilo Gentilli, achou de fazer piada - de mau gosto, diga-se de passagem -  com o episódio, e mais uma vez destilou o racismo entranhado em nosso sociedade – disse ele em um “stand up” de quinta categoria -  “Eu acho que os negros são os que menos buzinam, né, vai chamar a atenção pra carro roubado?”.

Ou seja, é a banalização do racismo da forma escancarada e desrespeitosa possível. Sem pudor e na certeza da impunidade. E ainda considerando que fazer apologia ao racismo é algo engraçado. Será que este humorista não sabe que por conta desta visão racista  de que todo “preto é ladrão” milhares de vidas de jovens negros estão sendo ceifadas pelo Brasil afora. E que até mesmo a Organização das Nações Unidas acaba de criar um grupo de trabalho, intitulado “Vidas Negras” para tentar estancar este verdadeiro extermínio da juventude negra brasileira?

Enfim, este tipo de atitude, ainda mais quando disseminada pelas redes sociais,  sequer pode ser chamada de brincadeira de mau gosto. É na verdade puro e simples racismo. E por isto mesmo, deve ser combatido de todas as formas, tanto com a demonstração de nossa indignação quanto com o uso dos mecanismos legais para punir os criminosos. Pois não nos esqueçamos – Racismo é Crime.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

Zulu Araujo

Foi Presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

 

 

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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