Oswaldo Faustino conta a história do ator Evaristo Márquez. Confira

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTO: Universal/Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Evaristo Márquez contracenando com Marlon Brando (de costas) | FOTO: Universal/Divulgação

Evaristo Márquez contracenando com Marlon Brando (de costas) | FOTO: Universal/Divulgação

Com feições que lembram as do ator brasileiro Antonio Pitanga, o colombiano Evaristo Márquez não poderia ter um início de carreira mais casual. Ele próprio seria um rico personagem para um filme. Analfabeto aos 30 anos, em 1968, estava tocando gado, a cavalo, pelos campos de San Basilio de Palenque, na Colômbia, quando o cineasta italiano Gillo Pontecorvo o convidou para fazer cinema, nofilme "Queimada".

Até aquele instante, Márquez nunca tinha assistido a um filme sequer. A novidade, porém, era muito maior: ele iria contracenar com Marlon Brando que, aos 44 anos, havia atuado em 23 películas, protagonizando a maioria delas, e já conquistara um Oscar de melhor ator por “Sindicato de Ladrões”, de 1954.

Márquez demorou a aceitar o convite. Só o fez por conta dos 2 milhões de dólares que receberia e porque alguém leria o roteiro para ele tomar conhecimento de suas falas e cenas. O roteirista Franco Solinas, que várias vezes cumpriu essa função, comentou que bastava ler uma vez e o novo ator já decorava. Brando procurava acalmá-lo durante as filmagens e o orientava como obter melhor resultado na interpretação. “Ele me tratou como um irmão. Nunca fez eu me sentir inferior e me ajudou muito a achar a melhor forma de fazer uma cena”, comenta Márquez, num documentário.

Pontecorvo tinha convidado Sidney Poitier para esse papel, mas outros compromissos o impediram de aceitar. Assim, o camponês Evaristo Márquez ganhou esse presente hollywoodiano e uma pequena fortuna que, segundo ele, foi gasta com mulheres e bebidas. Atuou ainda nos longas-metragens “Il dio serpente” (1970), “Cumbia” (1973) e “Mulato” (1974), e nos curtas “Chimbumbe” (2008) e “The Drum Magic” (2010).

Após o longa de 1974, voltou à vida camponesa e ao anonimato, na terra natal, compartilhando suas recordações com os filhos e os netos, dos quais desconhecia os números exatos, mas acreditava serem respectivamente 14 e 44. Só interrompeu essa rotina ao ser procurado por estudantes para participar dos dois curtas-metragens. Aos 73 anos, Evaristo morreu de infarto na tarde de 15 de junho do ano passado, num hospital de Cartagena.

Ver e rever “queimada” garantem emoções e boas reflexões, como a fala final de José Dolores: “Inglês, lembra do que você me disse? A civilização pertence aos brancos. Mas que civilização? Até quando?”.
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