Em sua coluna, Margareth Menezes explica a diferença entre o Axé e o AfroPop

 

TEXTO: Margareth Menezes | FOTO: Estúdio Gato Louco/Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Margareth Menezes escreve sobre a diferença entre Axé e AfroPop | FOTO: Estúdio Gato Louco/Divulgação

Margareth Menezes escreve sobre a diferença entre Axé e AfroPop | FOTO: Estúdio Gato Louco/Divulgação

AfroPop é uma identidade artística e de comportamento. Eu a assumo desde 1992, quando viajei ao redor do mundo tendo a música como passaporte. O termo entrou na minha vida quando integrei a turnê Rei Momo a convite de David Byrne. A crítica internacional definiu meu som como “Brazilian African Pop”. Quando voltei, traduzi: AfroPop Brasileiro. Comecei a usar para denominar a profunda identidade do meu trabalho musical com a terminologia.

De um lado, haviam ritmos afro-brasileiros e, do outro, o comportamento do rock e as sonoridades das guitarras, teclados e timbres da música pop mundial. Estes dois elementos, ricamente misturados, davam o tom nítido do AfroPop no meu trabalho, fruto da colaboração de músicos e da minha inquietude, bem diferente de tudo que se produzia na música baiana da época e do que depois veio a se chamar Axé Music. Mas, desde que comecei a me denominar como AfroPop, senti uma certa desconfiança em algumas figuras da cena musical baiana, inclusive ligadas a cultura afro.

Com o tempo e por força da música feita na Bahia, com toda sua mistura percussiva, alegria e irreverência o termo Axé Music foi ganhando força. Luiz Caldas e Sarajane foram os primeiros grandes representantes. A Axé Music era de uma força popular e comercial tão grande que mudou o padrão do Carnaval de Salvador. Um grupo de jovens empresários cheios de visão comercial tomou a dianteira, se organizou e fez surgir, desse filão, uma verdadeira mina de ouro. A “Hollywood baiana”, chamavam assim.

A partir daí, forçosamente, qualquer artista que cantasse música tropical com apelo percussivo na Bahia - se quisesse sobreviver - teria que receber o rótulo Axé Músic. Mas minha rebeldia é inata. Não era só uma questão de afrontar a máquina, até porque a Axé Músic tem importância pra mim, mas sempre achei que a música dos blocos afros, cantada pelos seus cantores negros, nunca foi valorizada nesta superindústria da Axé Music, que tem um perfil mais focado namúsica de carnaval. É por isso que o meu som é AfroPop. Ele se aproxima mais doregistro da identidade do nosso tesouro artístico cultural, na qual a Bahia sempre foi e sempre será referência.

Outro dia, um respeitado produtor da velha guarda citou a vinda de David Byrne, Paul Simon e Michael Jackson ao Brasil como uma conquista da Axé Músic. Não posso concordar. Essa foi uma conquista do Olodum, da música feita pelos blocos afros da Bahia, que passaram a ser incluídos no cenário midiático depois que David, Paul e Michael chegaram, do topo do reinado pop, para cantar com grupos e cantores afros que não eram reconhecidos pela mídia nacional.

Por tudo isso, defendo o AfroPop Brasileiro com o pertencimento de quem conhece um pouco da história e defende a contribuição vinda do povo da periferia. Estou na ativa há 26 anos. Muita coisa pra fazer, muita história para contar e cantar essa verdade, esse comportamento afro-brasileiro contemporâneo e urbano, que fala da nossa vida, nossa história e nossos amores sem esquecer nossas raízes.

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