A Ilusão racial no BBB 21

A Rede Globo de Televisão replica um programa americano de confinamento, onde pessoas, antes escolhidas aleatoriamente, se prontificam a viver numa casa por algumas semanas recebendo estímulos de luz, som, emocionais, supressão de alimentos, etc. Como fez Burrhus Frederic Skinner, psicólogo americano que tentava compreender o comportamento através de suas experiências com ratos.

No caso do Programa Big Brother, os ratos são humanos.
Os humanos normais, a noite, assistem de forma sadomasoquista o show bizzaro da realidade com a tradução bonita de “reality show”. O cinema fez uma espetacular película com esse tema em 1998 “O Show de Truman”, com Jim Carrey, vale assistir.

O BBB 21 trouxe uma novidade, percebendo o crescimento da discussão sobre diversidade, do movimento negro norte-americano sobre a importância e respeito à vida e a luta por espaços iguais para minorias. Vendo isso, os produtores construíram um ardiloso e perigoso cenário para expor a voz e conquista do movimento negro. Dividiu os participantes por cor, sendo os negros, supostamente, jovens militantes, ou representantes no modelo perfeito do “lugar de fala”.

Agora a tal representatividade, escolhida meticulosamente pela Rede Globo, está fadada a ser o que jovens de pouca leitura, pesquisa e estudo, subjugados a estímulos orgânicos e motivados por um prêmio monetário, fazem ou deixam de fazer. Para opinião pública, seremos isso ou o que a sobrevivência desses atuantes determinarem.

Da Bahia vejo mulheres e homens sorridentes pela conquista televisiva, são eles youtubers e os tais influencers digitais, juntamente com seu séquito acéfalo de seguidores, que alcançam popularidade com discursos “lacradores” – aquele que começa e termina ditando verdades, sem a possibilidade final do debate.

Estranhamemte estes tais influenciadores, não raro, nascem de comédias e piadas, do escracho nas redes sociais e no final são contratados em programas de auditório, onde em determinado momento apregoam verdades soltas e sem fundamento de pesquisa, emitem opinião que faz rir, somente para parecer que existe um espaço na mídia. No final acabam gargalhando e sambando vestidos a caráter com suas roupas temáticas e seus cabelos exóticos ao olhar do outro.
No início da Idade Moderna seriam chamados de bobos ou bobas da corte.

Enquanto a sociologia, antropologia, história, economia, geografia e ciência política estão debruçadas para construir rotas de inclusão e perceber a causa do racismo, meninos e meninas dentro de uma casa produzem o desserviço de mostrar de forma caricata, teatral e baseada no senso comum o que os novos filósofos e filósofas, ditos militantes, com suas teses de remendos e citações de vários autores, propõem como verdade. Argumentos lacunares e cheios de passionalidades.

E assim assistimos a nova pintura de uma grande edificação, desperdiçada, construída pela luta de pessoas sérias, antepassados
Assim, na “lacração” de visualizações e seguidores nas redes sociais, na presença corriqueira dos programas de auditório e entrevistas, com os pseudointelectuais e sua cachoeira de conceitos enquadrantes, neste circo assistimos atônitos, ruir a seriedade de uma luta nobre.

Da Revista Raça, catalisadora de mentes pensantes e diversas, onde tenho a honra de ser colunista, sentimos o hercúleo esforço de construção da consciência negra, secundarizado ante o varejo das ideias.

Vocês precisam dos seus novos Big Brothers, a vida real dos nossos irmãos fica longe desse circo de micos-leões-dourados, amestrados e sorridentes.

Os artigos aqui descrito condizem com a opinião de seu autor e não da Revista Raça como um todo.

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