Conheça a poesia urbana cantada por Ba Kimbuta

 

TEXTO: Leandro Valquer | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Ba Kimbuta | FOTO: Divulgação

Ba Kimbuta | FOTO: Divulgação

Foi nos anos 90, com o fim da guerra fria e o início da efervescência de movimentos contra o neoliberalismo e antiglobalização, que Ba Kimbuta mergulhou de corpo e alma no movimento hip-hop e, junto à camaradas como Robson Dio, Spaike Jay e Black Tico, fundou o grupo Atividade Negra, que depois se transformou em Uafro. Ba Kimbuta (que atua como vocalista e compositor) denuncia as mazelas que a pobreza e o racismo geram e, acima de tudo, sua luta cotidiana de superação individual, de sua família, do povo negro e de toda a humanidade rumo à emancipação, à superação do capital.

Sua música é inseparável de sua militância. É, aliás, sua ferramenta principal em busca de um mundo melhor. Ainda nos anos 90, fundou a associação Negroatividades, fortalecendo o movimento em Santo André (no ABC Paulista) e São Paulo, promovendo debates, reflexões e construindo perspectivas de vitória para a luta de classes, de gênero e racial. Junto ao Negroatividades, produziu o evento Grito da periferia, exibido em documentário pela TV Cultura, em 1999.

Nas coletâneas Revolução com a Nossa Cara, Tributo a Celso Daniel, Nós na fita e Projeto Viajar, deixou gravado o trabalho desenvolvido com a banda Uafro que, sem nenhum CD gravado, conseguiu espalhar por são Paulo, especialmente entre o movimento negro e estudantil, sua intensa musicalidade de poesia urbana afiada e certeira, mostrando assim o poder contemporâneo da cultura oral. Vi com os meus próprios olhos esse feito, a massa crítica furibunda cantando de punhos erguidos: “Hochimin é líder, tá na guerra mas não sai, e no Vietnã ele não deixa yanque entrar!”

Já na virada do século, Ba Kimbuta gravou com a Uafro o videoclipe Descobrimento do Brasil segundo Adal”, que tratou do epistemicídio e do genocídio do povo negro, além de abordar a maneira como o descobrimento do Brasil é tratado nas escolas sob o olhar de um menino, de um estudante negro. O vídeo está disponível no youtube e é uma ótima dica para aulas de história e geografia, segundo a professora Janaína, grande fomentadora e difusora da obra. Em 2003, novamente com Robson Dio e outros camaradas, fundou a Escola de Cultura Negra Bantu, em Santo André. Em 2006, integrou o grupo Amandla, como compositor, vocalista e percussionista. Ele também é coprodutor do “Dia da Cabeça Preta”, do “Jantar Africano”, e da “Usina Preta”, na cidade de Mauá.

 

Integrante do grupo de vivências negras e militância Kilombagem, em 2001, durante curso realizado pelo grupo numa aula sobre cultura negra e resistência, ministrado por Ba Kimbuta, havia no público um babalorixá que, emocionado e entusiasmado com a aula e com os cânticos do poeta, fez o inusitado convite para que ele cantasse numa cerimônia em seu Ilê. Ba e a banda foram. O “resto”, para quem não viu, fica por conta da imaginação...
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