A presença de pessoas negras em todas as etapas do audiovisual é estratégica para cinema mais diverso

Diretores do Nicho 54, instituto que atua no fomento às carreiras de pessoas negras no audiovisual, destacam a importância a formação, da curadoria e do ‘mercado” 

Ao assistir um filme, seja em salas de cinema, televisão ou mesmo em aplicativos mobile, pouco se pensa sobre o trabalho desempenhado para que aquela produção audiovisual alcance o público. Roteiro, elenco, preparação de atores, locação, fotografia, equipamentos, financiamento, prestação de contas. Um universo de demandas que, infelizmente, se colocam como grandes obstáculos para os trabalhadores do cinema no Brasil e no mundo, especialmente os negros.

Segundo estudo produzido, em 2018, pela Ancine, sobre a diversidade de gênero e raça no cinema, 70,7% dos profissionais da cadeia do audiovisual eram pessoas brancas, 5,3% pretas e 3% negras, em 2016.

A desigualdade se repete quando os cargos e funções dos trabalhadores do cinema são analisados. Desempenhando a função de diretor, as pessoas brancas representavam, no estudo, 97,2% dos trabalhadores, enquanto as negras (pretas e pardas), 2,1%. No roteiro a disparidade se repete: 93% de brancos e 2,1% de pessoas negras. Na produção executiva ocorre o mesmo, 89,4% de pessoas brancas nesta função e 2,1% de pessoas negras. O estudo também considerou equipe com raça/cor mista, que não passou de 4%. 

Mas, parece que as coisas estão mudando e temos observado aumento na quantidade e qualidade do cinema negro brasileiro. O que era uma suspeita se confirmou em uma conversa há duas semanas, com Fernanda Lomba e Heitor Augusto, atualmente à frente do Nicho 54, instituto que atua no fomento às carreiras de profissionais negres, negras e negros no audiovisual no Brasil. 

A despeito dos dados, quando questionados sobre o volume de produções audiovisuais afro centradas, Fernanda e Heitor explicam que entre 2015 e 2016, os debates se intensificaram, os festivais entraram em um processo de transformação, que levou ao escoamento de mais produção nos últimos dois anos. 

“Temos intensificação das vozes negras, aquém do que é justo, mas temos mais presença hoje”. Eles acrescentam que hoje “temos um boom para criativos negros, mas isso não se reflete na produção, nos contratos e etc. Por isso, é preciso sensibilizar a comunidade para que ela não se vulnerabilize diante das oportunidades. Precisamos lutar contra a cultura do deslumbramento e da ansiedade”.

A presença de pessoas negras em todas as etapas do audiovisual é estratégica para que o cinema brasileiro seja mais diverso

Garantir a presença de pessoas negras em todas as etapas do audiovisual é fundamental para que o cinema negro cresça e o cinema brasileiro seja mais diverso. Nesse sentido, Fernanda Lomba, Heitor Augusto e Raul Perez criaram, em 2019, o Instituto Nicho 54. 

O contexto, o momento político, a efervescência do cinema negro e, sobretudo, a preocupação em transformar a cultura do audiovisual, levaram Fernanda, Heitor e Raul a centralizar a experiência do instituto em três grandes eixos de trabalho: formação, curadoria e mercado. 

“A gente fundou o instituto em um momento em que três profissionais atingem uma encruzilhada nas suas carreiras. Precisávamos de um pensamento em cadeia. Os três eixos refletem isso, que, por sua vez, se refletem em todas essas etapas (formação, curadoria e mercado)”. 

Depois de muitas conversas com especialistas e de pesquisar e conhecer iniciativas que discutiam a racialização no audiovisual e também, depois de muitos encontros no café Jardin, no centro da cidade de São Paulo, espaço que inclusive agregava uma pequena sala de cinema, eles decidiram que fariam um trabalho propositivo.  

“Queríamos buscar um projeto que garantisse sua continuidade, em prol de uma comunidade, a partir de um grande guarda-chuva que é diversidade e mercado”. Acrescentam ainda que o mercado de trabalho em audiovisual se configurou em uma cultura anti profissional. “Não se consegue estabelecer marcadores de carreira, acerca de remuneração etc. Isso foi informando como a cultura deste trabalho engendra um sistema viciado. Portanto, a pergunta será: como estar, permanecer e ascender nesse mercado de trabalho?”

Na mesma época, Fernanda e Heitor, hoje à frente do Nicho 54, explicaram que nasceu também um desejo de buscar a internacionalização das trocas que estavam construindo. Declararam que não queriam aceitar ficar em um feudo onde a questão racial tem um teto no Brasil. Portanto, preferiram, ampliar discussões sobre o que o Brasil poderia fazer com parceiros negros do norte global. Essas discussões culminaram em parcerias com produtores, criativos e instituições do norte global, mas também da América Latina e de outras regiões. 

Quem sabe, em alguns anos, a partir do trabalho realizado pelo Nicho 54 e outras instituições, grupos e coletivos, os estudos como aquele feito pela Ancine em 2018, possam ser positivamente impactados. 

Foto: divulgação.

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Jornalista, pós-graduada em comunicação e saúde, produtora de conteúdo, defensora dos direitos humanos e promotora da equidade de gênero e raça. Escreve sobre beleza, identidade, autoestima, livros e filmes. É também idealizadora do Mundo da Rua Podcast.

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