Veja a carreira e a vida da brasileira que já conquistou o prêmio de melhor jogadora de futebol do mundo por cinco vezes, Marta

 

TEXTO: Caroline Rossini | FOTOS: CBF e Divulgação | Adaptação web: David Pereira

A jogadora Marta atuando pela seleção brasileira | FOTO: CBF

A jogadora Marta atuando pela seleção brasileira | FOTO: CBF

Titular com a camisa 10 da seleção brasileira, faturou cinco vezes consecutivas a Bola de Ouro de melhor do mundo pela FIFA, possui artilharia em Copa do Mundo e nos Jogos Pan-Americanos, duas medalhas de prata em Olimpíadas e carreira de sucesso na Europa. Este vasto currículo vencedor dentro das quatro linhas pertence a uma mulher.

O craque, nesse caso, possui cabelos longos e negros, baixa estatura, apenas 28 anos e consegue deixar muitos jogadores no chinelo. Marta Vieira da Silva é uma batedora de recordes profissional, mais um dos brilhantes prodígios futebolísticos que apenas o Brasil consegue produzir e um grande exemplo para garotas que sonham com uma carreira no futebol – ou aquelas que apenas gostam do esporte e ainda ouvem comentários preconceituosos de quem ainda não entendeu que lugar de mulher também é no gramado.

Perseverança e sucesso

Por diversas vezes Marta foi comparada a Pelé, mas dispensa o elogio e afirma que procura ter o seu próprio espaço. Antes de alcançar o patamar de “rainha” ou “Marta Maravilha”, como já foi apelidada, a jogadora viveu uma infância humilde em Dois Riachos, sertão de Alagoas, de onde saiu aos 14 anos, deixando a mãe, Tereza, e os três irmãos por uma causa nobre: correr atrás da bola e do sonho de ser uma atleta profissional. A mãe não acreditava muito que a filha conseguiria ter sucesso em mundo predominantemente masculino, mas viu sua única menina, que adorava jogar bola com os primos e demais garotos pelas ruas da cidade, seguir em frente e partir em um ônibus para o Rio de Janeiro em direção a um futuro incerto. E contrariando as possibilidades, fez acontecer.

Começou jogando pelo Centro Sportivo Alagoano, passou por Vasco da Gama (RJ) e Santa Cruz (MG), e viu sua vida mudar drasticamente no ano de 2004, quando tinha apenas 18 anos e recebeu uma proposta irrecusável: ir para a Europa, onde o futebol feminino é valorizado e recebe muitos incentivos. Sendo assim, Marta fez as malas novamente e partiu em direção à Suécia, para vestir a camisa do Umeå IK, onde jogou entre 2004 e 2009 e tornou-se famosa em todo o mundo. A rapidez em campo, os dribles desconcertantes e os bons tiros de canhota renderam à menina pobre de Alagoas nada menos do que cinco prêmios Bola de Ouro, da FIFA, além dos títulos pelo seu clube sueco. Marta já era uma lenda. Dura realidade Mesmo com o sucesso na Suécia, Marta nunca chegou a desfrutar dos salários exorbitantes que recebem muitos dos craques dentro e fora do Brasil. Mas não se pode negar que a jogadora esteja em uma posição privilegiada, pois muitas de suas colegas de seleção vivem diariamente com a falta de recursos e incentivos ao futebol feminino no Brasil. Para exemplificar a desigualdade entre as categorias do esporte, basta comparar duas informações: Para a realização do campeonato feminino houve um investimento de 10 milhões de reais, com patrocínio da Caixa. No Brasileirão do mesmo ano, a mais cara folha salarial da disputa, a do Grêmio, constava um gasto de 9.8 milhões de reais. A luta por mais investimentos no futebol feminino continua e o preconceito contra as mulheres na profissão dificulta o trabalho diário das atletas, o que leva boa parte das profissionais para a Europa e EUA, onde o esporte recebe maior atenção.

Marta entregando uma camisa do Santos F.C para a Presidenta Dilma Rousseff | FOTO: Divulgação

Marta entregando uma camisa do Santos F.C para a Presidenta Dilma Rousseff | FOTO: Divulgação

Vitória do bem

Mesmo com as dificuldades do esporte, Marta conseguiu manter uma qualidade de vida estável na Suécia, onde viveu sozinha. No começo da carreira conseguiu comprar uma casa para a mãe e continuou a ajudar a família, mesmo à distância. E além de dar show nos campos e ajudar os familiares, a jogadora recebeu o convite para se tornar embaixadora da Boa Vontade pelo Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento (Pnud).

Assim como a modelo Gisele Bündchen e a tenista Maria Sharapova, Marta tem como responsabilidade atuar em diversas campanhas e participar de projetos em prol do desenvolvimento da humanidade, com foco em comunidades carentes de educação, saúde e políticas públicas. Em seu caso, foi designada a promover e fortalecer papel da mulher na sociedade, missão que aceitou prontamente. Ao receber a nomeação, a atleta se disse orgulhosa em poder realizar um trabalho que muda a vida das pessoas.

Em 2011, a alagoana passou três dias em Serra Leoa, na África, onde visitou projetos e se reuniu com grupos que defendem mudanças na legislação para garantir a aprovação de leis que estabeleçam cotas para mulheres em todos os níveis de tomada de decisões políticas. No ano passado, a jogadora estrelou um vídeo feito pelo Pnud alertando as pessoas sobre os abusos físicos e sexuais sofridos por mulheres em todo o mundo diariamente. E o objetivo da atleta é trabalhar cada vez mais para fortalecer o papel da mulher, principalmente nas sociedades em que elas são preteridas.

Ao infinito e além

Quase quinze anos após sair de Dois Riachos para tentar a vida como jogadora de futebol profissional, Marta possui hoje o reconhecimento internacional que poucos profissionais do esporte conseguiram atingir levando-se em conta que se trata de uma mulher no mundo masculino do futebol, que não nasceu em berço de ouro e que teve que batalhar em um país no qual a categoria feminina é subestimada, a carreira que conseguiu construir até agora é mais do que admirável.

Mas a jogadora ainda pode fazer história, caso consiga conquistar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016 – feito que nem mesmo a equipe masculina conseguiu até hoje.

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