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“Adeus à carne” será?

Mais do que nunca as festas profanas popularmente conhecidas como Carnaval tem cumprido seu papel de satirizar a bruta realidade que o Brasil está vivendo. Originadas na antiguidade e recuperadas pelo cristianismo como válvula de escape das mazelas do dia a dia, o Carnaval no Brasil tem servido, e muito, para exorcizar os demônios que rondam nossas cabeças, esculachar com as autoridades de plantão e escandalizar os pseudos puritanos. Aqui e acolá um pouco de história, reflexão ou protesto. Mas, o que tem predominado mesmo é o extravasamento puro e simples dessa realidade angustiante que os brasileiros estão vivendo a contra gosto.

Não sendo antropólogo nem sociólogo para analisar e entender a profundidade, as razões e as repercussões que estas manifestações podem trazer para a nossa sociedade, me contento em apreciar, comentar e me divertir durante este período. Neste sentido, tenho observado que nos grandes carnavais do país (Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador) virou moda abordar a questão racial nos desfiles carnavalescos e pelo visto com relativo sucesso, visto que tem tido grande aceitação na grande mídia. Daí, não posso deixar de registrar a propensão da elite brasileira para a folclorização da dor e do sofrimento que foi a escravidão no Brasil sem que isto altere um milímetro sequer da nossa realidade.

No Rio e em São Paulo as Escolas campeãs: Mangueira e Mancha Verde versaram exatamente sobre esta temática: negros, e indígenas, discriminação, escravidão e coisas que tais. Em que pese os desfiles terem sido belíssimos não consigo me entusiasmar muito com seus resultados e exaltá-los como o reconhecimento de que enfim a questão racial e social está sendo tratada com o devida importância pela sociedade brasileira. Até porque, não há qualquer impacto desses majestosos desfiles na cruel realidade do extermínio da nossa juventude nos morros carioca ou nas periferias de São Paulo ou de Salvador.

Em Salvador, que é outro centro vigoroso do carnaval africanizado e tido como o mais popular e participativo do país a situação também não é muito diferente. O modelo predatório que foi entronizado por mais de 30 anos pelos empresários do Axé Music levou o Carnaval da cidade a mesmice e exaustão. Entre denúncias, falta de patrocínio, incompetência e amadorismo o carnaval afro agoniza.

Nesta crise de modelo gerencial em que vivem os carnavais no Brasil há evidentemente exceções, a Mangueira no Rio de Janeiro com sua forte presença social e negra e o Olodum na Bahia. Aliás, o Olodum, tem sido um grande alento para quem ainda acredita que podemos fazer da cultura um espaço de geração de emprego, renda e alegria sem perder a cidadania. Enquanto a Mangueira
venceu o desfile no Rio, o Olodum esteve entre os 10 primeiros grupos em exposição de mídia na Bahia, equivalente a 27 milhões de reais em mídia espontânea e quase sete horas nas telinhas do mundo inteiro, além de ter arrastado mais de 150 mil pessoas no último dia de carnaval pelas ruas do Centro Histórico da cidade sob o comando da sua poderosa Banda de percussão.

Ou seja, neste processo de espetacularização em que vive as sociedades contemporâneas é preciso estar atento com a midiatização das tragédias pois “cavalo não desce escada” e o carnaval não pode substituir a nossa luta real e cotidiana por melhores condições de vida. A realidade que nos espera para o pós carnaval não será nada fácil e precisaremos de muito mais do que sátira e esculacho para enfrentá-la. Não enxergo no curto prazo, nem no campo da esquerda nem no campo dos movimentos sociais, em particular no movimento negro, nada que indique propostas novas, exequíveis e aglutinadoras para enfrentarmos o tsunami de conservadorismo que se avizinha. Daí considerar que para além das performances maravilhosas da Mangueira e do Olodum no Carnaval deste ano, também precisaremos de serenidade, firmeza e determinação para que o Brasil retome o caminho da democracia, do combate as desigualdades e do respeito à diversidade.
Toca a zabumba que a terra é nossa!

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Foi Presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.