Afroafetividade: negros e negras na paquera

Saiba como funcionam os maiores grupos virtuais de paquera para a população negra no Brasil

Grupos de relacionamentos que conectam pessoas negras nas redese sociais; “Afrodengo”, “Pretinder e Afrocentrados” e “Tindó”. Muito além da paquera, esses espaços promovem locais seguros para troca de afeto e construção de relações saudáveis, afetivas-sexuas ou não, através do ideal de afrocentricidade .

Para compreendermos esse novo movimento entrevistamos Lorena Ifé, criadora do grupo “Afrodengo”, Jozi Belisario, administradora do grupo “Pretinder e Afrocentrados” e Roger Cipó, fundador e treinador do encontro virtual “Tindó”.

Quando e por que surgiu o Afrodengo? 

Lorena Ifé (Afrodengo) – Aos 18 anos,quando  passei pelo processo de transição capilar, que foi o primeiro passo para mudança da minha vida, comecei a entender a importância de trabalhar negritude para o fortalecimento da identidade, então fiz uma escolha afetiva de me relacionar apenas com pessoas negras, tentei usar aplicativo de relacionamentos, mas a realidade dos aplicativos não condiz com a realidade da cidade onde eu moro. Onde 80% da população é negra. Foi aí que passei a me questionar, conversei  com outras amigas e percebi que as queixas eram as mesmas. Em Janeiro de 2017 decidi criar um grupo, antes do Afrodengo, criei o “Amor Preto”, que era um grupo de leitura sobre relacionamentos negros, depois veio o Afrodengo com a proposta de pensar paquera mesmo. Encontrei essa palavra na internet e depois descobri que dengo é de origem africana, da língua quicongo, que significa afeto/amor. O grupo viralizou em questão de semanas.

Como entrar no grupo? Quais são as regras do jogo?

Jozi Belisario (Pretinder e Afrocentrados)- O grupo é exclusivo para pessoas que se autodeclarem negras e maiores de idade, solteiros ou em um relacionamento não monogâmico, tem situações em que os casais estão no grupo porque o relacionamento nasceu ou se formou ali, mas um só fica bastante complicado. Eu proibi de falarem mal de pessoas pretas no grupo, lançando sempre o questionamento de “será que essa pessoa também não está adoecida” Proibi também de pautarem brancos, não quero saber se o fulano palmita ou não eu sei que as pessoas que estão aqui estão para afrocentrar, estamos aqui para falar da gente e vamo que vamo. Outra coisa que friso sempre é o respeito a militância dos outros, independente das vertentes de luta, a gente se respeita. Para aprovar a entrada, dou uma olhada no perfil das pessoas e a nossa exigência é que o perfil esteja ativo a pelo menos 2 anos.

Na sua opinião, qual a importância do amor afrocentrado  para a nossa emancipação?

Roger Cipó- Primeiro eu gostaria de falar da diferença entre o amor preto e o amor afrocentrado, o “amor preto” é basicamente o amor entre duas ou mais pessoas, que se reconhecem numa identidade negra. Agora o amor afrocentrado, é o amor em que duas ou mais pessoas negras que têm o os ideais da afrocentricidade permeando inclusive o relacionamento, afrocentricidade é uma uma perspectiva, um paradigma de pensar e de agir tendo não só a África como um sentido de pensamentos e de filosofia no centro das nossas ações, mas no centro da construção das nossa subjetividade e na forma com que a gente percebe o mundo. E aí, pensando nisso, o amor entre pessoas negras é primeiro uma importante ação anti-racista, porque é a possibilidade de humanizar outras pessoas negras, à medida que você se humaniza também e num lugar que as pessoas negras são marginalizadas, inclusive com a negação do afeto, ter coragem de amar uma pessoa negra é um ato anti-racista, é um ato um ato de valorização da nossa existência. Amar uma outra pessoa negra é também o ato de amor próprio.

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