Ainda somos farol

O ano era 1996, nossa jovem e frágil democracia ainda engatinhava em seu ideário, afinal a nova carta magna não tinha nem dez anos e as novas estruturas sociais, como as organizações da sociedade civil, ainda se estruturavam. No âmbito da luta racial no Brasil algumas organizações negras começavam a se consolidar como MNU (Movimento Negro Unificado), nascido em 1978, ainda no regime militar, ainda novas correntes no campo ideológico de denúncia à falsa democracia racial surgiam.

Instituições como GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra, CEERT- Centro de Estudos das Relações Raciais no Trabalho, Conselho da Comunidade Negra em São Paulo, CEAP no Rio de Janeiro, CECUME no Rio Grande do Sul, CEDEMPA no Pará, OLODUM e Ilê Aiyê na Bahia traziam uma nova narrativa da luta antirracista no Brasil engrossando a nova política institucional brasileira e nesse ambiente institucional redemocratico, nasce a mais esperada publicação negra do século 20, a revista RAÇA Brasil. Primeiro veículo de comunicação pós-abolição a ter distribuição nacional tentando unificar as diversas linguagens negras em nosso território.

Desde o seu nascedouro a RAÇA tinha um projeto diferenciado, ou seja: ser porta-voz da maior população negra fora da África um ideário que persiste até hoje e por isso não só no passado mas ainda na atualidade encontra muita resistência no mercado, pois o espaço da comunicação em nosso país é disputadíssimo e apenas meia dúzia de famílias controlam mais de 90% deste setor estratégico de poder que já elegeu e derrubou presidentes da república.

Neste contexto e inspirado em publicações dos Estados Unidos, como a revista Ebony, surge a RAÇA Brasil que tem se colocado nos últimos 25 anos em um lugar especial no espaço das comunicações, continua sendo o único veiculo de comunicação negro com experiências em todas as mídias de comunicação existentes, inclusive, nas mais resistente e elitista de todas, o impresso. Mas além da força do impresso, a pouco mais de três anos a RAÇA entra no também disputadíssimo mercado digital e não paramos mais .

Contrariando a tendência de crise dos últimos anos no mercado editorial, a RAÇA reformulou as áreas digitais e impressas em um novo projeto gráfico editorial e desde então, só crescemos. Vieram articulistas, jornalistas, estudantes, mestres, doutores, produtores de moda, empresários, micro e pequenos empreendedores e cada um
contribuindo naquilo que podia, começamos a nossa virada.

Nosso crescimento ultrapassou mais de 1000% nos últimos dois anos e nossas responsabilidades também se multiplicaram. Hoje a revista RAÇA, o RAÇA na TV e a RAÇA Eventos, que tem servido de ponte entre estrelas do show business e o público negro tem mostrado uma outra forma de se fazer comunicação com foco na diversidade, respeitando nossos consumidores em sua maioria negros.

Nossa maior ação social, o Brasil Diverso, que reúne grandes marcas e nomes do empresariado brasileiro para discutir a presença e ausência de negros em cargos estratégicos da economia brasileira, tem servido de inspiração para empresas brasileiras e multinacionais, encontrando um espaço de sinergia no combate às
desigualdades no mercado de trabalho e o surgimento de outros movimentos sociais negros com foco na inserção de negros e negras no disputadíssimo mercado corporativo.

O que faz a RAÇA ,ainda ser um farol.

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jornalista CEO e presidente do Conselho editorial da revista RAÇA Brasil, analista das áreas de Diversidade e inclusão do jornal da CNN e colunista da revista IstoÉ Dinheiro

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