A estilista Najara dos Santos Souza é a criadora da N Black, marca de roupas e acessórios unissex, criada no ano de 2005. A princípio, era destinada exclusivamente a fabricação de camisas com a estampa que dá a imagem da marca (boneca de cabelo black), mas, posteriormente, foi expandindo-se para outros tipos de trajes, como vestidos, calças, peças em jeans, acessórios, linha infantil e uma linha Plus Size. A marca nasceu com o intuito de fazer uma moda para todos aqueles que se identificavam como e com a cultura negra e a população afrodescendente, contribuindo na construção do sentido de pertencimento e elevação da autoestima dessas pessoas.

 

Durante o período de 2007 a 2011 a marca começou a criação de figurino para bandas e artistas de Salvador como: Márcio Victor (Psirico), Falcão da banda Guig Ghetto, Peu Meurray, Magary Lord, entre outros, e também a confecção de fardamentos para agências promocionais como: Ideia 3, Plural Promo, Bumerangue, Specht e Caco de Telha.

 

Quando a marca surgiu, o mercado de moda em Salvador ainda era pequeno e não se percebia um diferencial entre a maioria das marcas comerciais já existentes. Então, em busca de uma ideia de modernidade junto às raízes africanas, a N Black se estabeleceu. Seguindo uma linha contemporânea, despojada, ousada e com bastante atitude da moda de rua, a N Black vem ganhando espaço no mercado alternativo de moda, não só em Salvador, mas de reconhecimento também nacional e internacional.

 

Assim, em 2012, foi criada a loja física, pois até então a fabricação e entrega dos produtos se dava de maneira informal. Em 2014, com nove anos de N Black, e dois anos de loja, a marca buscou inovar para construir visibilidade em outros espaços ainda não explorados e vem ganhando visibilidade no Rio de Janeiro e em São Paulo.  Em 2014, a marca foi convidada a participar do Prêmio Mulher de Negócios do SEBRAE e por consequência participou da Feira Preta de São Paulo e de Brasília. O ano de 2015 começou em grande estilo, participando da Alameda das Sensações no Festival de Verão, em seguida da Feira da Cidade e da Primeira edição do Projeto Afro Fashion Day, realizado pela Rede Bahia.

 

O ano de 2016 começou com agenda cheia, logo no início, firmou uma parceria com o camarote de Lícia Fabio, no Carnaval de Salvador; realizou um projeto de customização de abadás na Alameda das Grifes, no Shopping da Bahia, um período de muito sucesso e trabalho dentro de um dos principais Shopping Centers de Salvador e num espaço historicamente excludente para a população negra. No decorrer do ano, fez participação em várias feiras, incluindo Pop Up, na capital baiana e dos 15 anos da Feira Preta São Paulo, encerrando este ciclo com a presença no segundo ano do Afro Fashion, sendo que Najara, além de participar com suas roupas, foi modelo Plus Size no desfile.

 

A marca vem sobressaindo no mercado pela originalidade e criatividade, a loja comercializa peças exclusivas, elaboradas para satisfazer os clientes, que geralmente tornam-se assíduos no consumo de roupas e acessórios compondo uma carência que já existia nesse segmento de produto, mesmo em Salvador.

 

Numa agradável conversa com Najara, ela conta sobre sua trajetória e o conceito do trabalho:

 

"Comecei meu trabalho de forma despretensiosa, sem saber ao certo o que estava fazendo, mas dentro de mim existia essa vontade, esse querer, e dei continuidade. Os anos se passaram e comecei a entender que o que estava fazendo era forte, profissional e que mudaria a minha cabeça (e vida) e de várias pessoas da minha geração. O que eu sempre quis fazer era dar voz, espaço e trabalhar a autoestima dos jovens negros (as) e afrodescendentes esquecidos e ignorados por não assumirem um perfil estabelecido pela sociedade. Foram anos de luta, rejeição, negação, mas me mantive sempre firme e forte no meu propósito; é muito gratificante quando vejo minhas ideias e criatividade se materializarem nos corpos dos clientes, mais feliz fico quando escuto " você me representa", "você é minha referência ", " A N Black nos representa" e vários outros elogios que me fazem entender e compreender que todas as lutas travadas anos atrás valeram a pena. Aos poucos tenho trilhado o meu caminho e vou deixando experiências para os que estão chegando. Temos poucas referências de estilistas negras no Brasil, mas as poucas que temos já enchem meu coração de orgulho e felicidade por saber que não estou só nessa luta. Sinto falta da valorização e reconhecimento do nosso trabalho. A influência da moda afrobrasileira está estampada nas cores, formas e estilo da moda atual brasileira, porém eles divulgam os que é nosso mas não divulgam os nossos.”

 

Das muitas imagens publicadas nos editoriais de moda da N Black, a Coleção  `O amor é amor não importa como for!’ , para 2017, trouxe uma qualidade de fotografia, conceito e discurso político surpreendentes. O editorial fotografado pela talentosa artista baiana Helemozão, expressa toda sutileza do amor através dos olhares e gestos das pessoas convidadas como modelos, em imagens que refletem alegria e o clima de romance de casais que destoam do padrão hegemônico de beleza, comportamento, corporalidade e sexualidade.

 

"Hoje consigo compreender que faço muito mais do que criar roupas, mas, sim, trabalhar a autoestima, sensações e sentimentos das pessoas. Quando convido uma cliente negra, gorda, periférica para fotografar vejo a importância que isso traz para vida dela, como mexe com ela e isso me deixa feliz e realizada. Quebrar padrões e rótulos, mostrar como temos pessoas bonitas, profissionais e capazes de trabalhar no mercado da moda é o nosso intuito. O vestuário contribui para a construção do perfil das pessoas, podendo até refletir o seu estado de espírito e é através do vestuário que realizo minha construção política que será representada para esta geração e a que está por vir.”

 

AMOR É AMOR NÃO IMPORTA COMO FOR.

Foto: Helemozão Fotopoesia
Make: Larissa Montenegro e Victória Ásfora
Produção : Najara Black
Assistentes: Vera Porto Ttatta Brasil e Augusto Elyote

 

CAROL BARRETO

Mulher Negra, Feminista e como Designer de Moda Autoral elabora produtos e imagens de moda a partir de reflexões sobre as relações étnico-raciais e de gênero.  Professora Adjunta do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade - FFCH – UFBA e Doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade – IHAC – UFBA, pesquisa a relação entre Moda e Ativismo Político.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

 

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