Caso Robinho: mais do mesmo

Zulu Araujooutubro 20, 20206 min
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Os argumentos, as explicações e, por fim, a frase lamentável do jogador de futebol Robinho – “infelizmente existe esse movimento feminista” – por conta da mobilização das lideranças feministas e de parte do mundo esportivo, contra sua contratação, pelos Santos Futebol Clube, tendo em vista sua condenação por estupro de uma jovem albanesa, na Itália, diz bem dessa cultura abjeta ainda existente no Brasil: a cultura do estupro.

Para uma pessoa desatenta parece até que a culpa de ter sido estuprada por seis homens brasileiros no camarim de uma casa de show, quando celebrava seu aniversário, é da jovem, que não deveria estar no local, estar bêbada, ou ser mulher, e não dos criminosos que, aproveitando-se dessas circunstâncias, cometeram esse crime hediondo.

O mais grave, porém, é o acolhimento ou o pouco caso que parte da sociedade brasileira deu inicialmente ao assunto. A começar pelo clube santista, que só desistiu da contratação após forte reação nas redes sociais da própria torcida e a ameaça dos patrocinadores de deixarem o clube. O curioso em tudo isso é que o próprio técnico do clube (Cuca), já havia sido condenado, há 33 anos, por ter estuprado em Berna na Suíça, uma garota de 13 anos, com mais três jogadores, numa excursão do Grêmio. Ou seja, não aprendeu nada.

É vergonhoso ver comentaristas esportivos, apresentadores e até mulheres afirmarem, da forma mais desrespeitosa possível, que possivelmente ela era uma prostituta e que, por conta disso, teve o que merecia. Aliás, o próprio Robinho corrobora essa tese ao afirmar, peremptoriamente, que o único arrependimento que tinha era de ter traído a esposa e não do cometimento do crime. Destaque positivo, para a postura do comentarista Casagrande, ex-jogador do Corinthians: “Essa negociação não devia nem ter começado. Foi bom pra mostrar que o futebol faz parte da sociedade, não é um universo separado. Tem que parar de aceitar sacanagem como coisa normal…”.

Neste sentido, o trabalho da polícia e da justiça italiana foi exemplar. Fazendo uso exclusivamente da intelligentsia, com depoimentos de testemunhas e escuta ambiental obteve dos próprios criminosos as provas necessárias para suas condenações. Os diálogos divulgados pela Rede Globo, no último domingo, revelam o desprezo e descaso que o famoso atacante dispensa as agressões das quais a jovem albanesa foi vítima. “Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu.” Disse o jogador, debochando tanto da justiça italiana quanto do crime cometido.

Nos chama atenção, enquanto militantes do movimento negro brasileiro e que tanto temos lutado contra as violências das quais as mulheres negras são vítimas, em particular a violência sexual, algo também considerado normal, no período da escravidão. O estuprador é um homem negro, rico e famoso e a jovem é branca, imigrante e europeia. Para que não restem dúvidas sobre a nossa posição – nosso repúdio deve ter a mesma força caso a situação fosse inversa.

Não podemos partilhar nem sermos coniventes com atitudes como estas apenas por conta da cor da pele. Qualquer um que cometa atos hediondos como este, merece ser rigorosamente punido, independentemente da cor da pele, da origem social ou da conta bancária. Afinal, as mulheres merecem respeito, sejam de que raça for.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

 

*Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião da RAÇA, sendo de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

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Zulu Araujo

Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

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