“Como a poeira, eu vou me levantar”

Nesta semana faz um ano que George Floyd foi brutalmente assassinado. Assim como a primeira parte do poema de Maya Angelou que dá título para esse artigo, ele foi “jogado no chão”. Buscou o ar que não alcançou seus pulmões, esmagados por um joelho. George Floyd  não resistiu. 

Também não foi a primeira vez que isso aconteceu. Seis anos antes, Eric Garner também disse que não estava conseguindo respirar ao sofrer uma violenta abordagem policial em Nova Iorque. Ele também não resistiu. 

Acontece que o caso de 2020, de George Floyd foi, infelizmente, emblemático porque o mundo acompanhou ao vivo assassinato, quando pessoas, que viam a cena e pediam compaixão do policial que esmagava o pescoço de Floyd com o joelho, resolveram transmitir ao vivo as imagens. Em poucos minutos os vídeos viralizaram nas redes sociais e escancararam a brutalidade letal da polícia, que nos Estados Unidos e também no Brasil, parece ter como alvo preferencial as peles mais negras.

Em plena pandemia, com severas restrições de circulação, um levante negro pelo fim da violência e da brutalidade letal policial se ergueu ao redor do mundo, para mais uma vez denunciar o racismo. Em maio e por muitos meses subsequentes, as ruas foram tomadas, estátuas em homenagem a racistas e escravocratas foram derrubadas. Gente preta seguiu sendo “tombada”, mas, o movimento avançou e a pressão culminou na prisão quase que imediata e, mais recentemente, na condenação de Derek Chauvin, ex-policial, que matou George Floyd. 

No Brasil, caso similar aconteceu na véspera do Dia da Consciência Negra também em 2020, quando João Alberto Silveira Freitas, também homem negro, foi espancado por seguranças de uma unidade do Carrrefour de Porto Alegre. João Alberto saiu sem vida do supermercado. Um levante também foi despertado no Brasil. As ruas não foram tomadas por multidões, mas sim teve muita gente nas ruas, grupos se mobilizaram e a imprensa negra teve papel decisivo ao noticiar o fato e cobrar justiça. Os envolvidos foram indiciados, mas o caso ainda não foi solucionado. 

A despeito do grande problema, dos desafios e barreiras impostas pelo racismo, inclusive nos processos de identificação dessa violência como algo direcionado para pessoas negras, cabe registrar que em todos os casos, sem exceção as comunidades negras se levantaram. Como ensinou Maya Angelou em “Ainda assim eu me levanto”. Portanto: 

“Você pode me riscar da História
Com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra,
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar”

Trecho do poema “Ainda assim eu me levanto”, de Maya Angelou, escrito em 1978 sob o título original “Still I Rise”.

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Jornalista, pós-graduada em comunicação e saúde, produtora de conteúdo, defensora dos direitos humanos e promotora da equidade de gênero e raça. Escreve sobre beleza, identidade, autoestima, livros e filmes. É também idealizadora do Mundo da Rua Podcast.

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