Como ajudar a fortalecer a saúde emocional de crianças negras

Conversamos com a psicanalista Elisama Santos sobre como contribuir para que crianças negras cresçam fortalecidas diante de uma sociedade racista

Uma das preocupações que afetam os pais de crianças negras é ver o filho ter que lidar com situações racistas logo na infância. Apesar de ser um assunto profundamente triste e impactante na vida de pessoas negras, não deveria ser algo que crianças tivessem que lidar logo cedo e isso já provoca impactos que, provavelmente, pessoas brancas não terão que lidar no começo da vida.

Pesquisadores do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard fizeram um estudo intitulado “Como o racismo pode afetar o desenvolvimento infantil”. Já de início, a pesquisa afirma que se não houvessem disparidades raciais na saúde e nos resultados de aprendizagem, os Estados Unidos economizariam bilhões com custos em saúde.

A pesquisa aponta que fatores como o desgaste emocional de vivenciar experiências constantes faz com que o cérebro permaneça em estado de alerta a maior parte do tempo, levando áreas cerebrais relacionadas ao medo, à ansiedade ou impulsividade a desenvolver um excesso de conexões neurais. A longo prazo, o aprendizado, o comportamento, a saúde física e mental das crianças pode ser prejudicada.

Conversamos com a psicanalista, Elisama Santos sobre como ajudar as crianças a lidar com o racismo e fortalecer sua autoestima. Santos é mãe de duas crianças e publicou livros que ficaram bastante populares como “Educação não violenta” e “Por que gritamos”, neles, a psicanalista busca auxiliar famílias na busca por um relacionamento mais conectado e assertivo com crianças e adolescentes.

A partir de que idade é preciso falar com crianças negras sobre racismo? E por quê?

Se existisse uma resposta ideal para essa pergunta de quando falar sobre racismo com criança negra essa resposta seria nunca, porque a gente não precisaria ter essa convicção. Pensando nas nossas realidades, nas nossas múltiplas realidades, cada família precisa perceber qual é o momento de iniciar a conversa sobre o racismo. Por que o racismo dá suas caras. Um momento que nós não esperamos. Então, às vezes, você está preparado para ter essa conversa quando a criança entrar na escola porque você sabe que entrando na escola é provável que ela tenha contato com o racismo ali, por volta dos três, quatro ou cinco anos. Mas aí acontece a situação na vizinha, no mercado, com sua menininha de 2 anos. E você precisa falar “o seu cabelo é lindo filha, é que infelizmente algumas pessoas não aprenderam a respeitar a nossa cor e o nosso cabelo e não tem nada de errado com você”. E dói o coração da gente ter essa conversa com crianças de 2 anos. Essa conversa com criança de 3 anos, ter essa conversa com a criança de 4 anos. Então não dá para falar a data certa porque não tem data certa de que o racismo vai bater na nossa porta. O que a gente não pode fazer, jamais, é deixar que a criança vivencie a experiência, cujos comentários normalmente giram em torno da aparência dela quando ela ainda é muito nova, e ficar calada.

Se ela está sofrendo essas consequências do racismo, se ela está sendo vítima de racismo, ela precisa saber que o problema não está nela. O que eu considero essencial é que os pais e mães de crianças negras tenham consciência que existe em nós uma missão de apresentar a nossa negritude para os nossos filhos e para além da dor. Que antes de eles terem esses contatos difíceis, que eles tenham referências de pessoas parecidas com eles que eles vejam os autores que a gente lê, que eles vejam um mundo negro ao redor deles. Porque aí quando as situações sociais complicadas e difíceis acontecerem a criança não vai olhar ao redor, na televisão, nas mídias nos livros, daí ela vai pensar “não, realmente eu não sou e eu que não me encaixo”. Ela vai estar fortalecida de um jeito diferente para, infelizmente, conseguir encarar essa realidade tão dolorosa que todos nós negros vivemos no Brasil e em boa parte do mundo”.

Como acolher crianças que sofreram algum tipo de ataque racista em ambientes escolares e de recreação?

O primeiro ponto no momento de acolhimento de uma criança que foi vítima de racismo é que a gente não pensa que essa criança relativiza o que ela viveu. Existe um impulso do adulto de falar “não, não se deixa abalar. Ele foi bobo. Não se importe com isso”. E não dá para você falar “não se importe” com uma ferida tão grande como uma dor ancestral. Então escutar o que essa criança tem para dizer em vez de dizer para ela como ela deveria estar se sentindo. Nós precisamos do acolhimento, ele passa por essa escuta atenta, por essa escuta disposta. “O que aconteceu meu filho e como você se sentiu? O que você pensa a respeito disso? O que é que você acha que a gente deve fazer?” Não quero dizer que os pais ou os adultos ao redor não vão ter opiniões sobre como agir e a melhor forma de conduzir a situação. Lógico que nós vamos agir, mas é essencial que essa criança se sinta ouvida, que ela se sinta acolhida. E aí depois que nós lutarmos, depois que ela conseguir falar e chorar e elaborar o que ela falou e o que ela viveu nós podemos conversar, e a gente pode dividir uma história, a gente pode falar sobre os nossos aprendizados sobre isso.

Por isso é tão importante que antes de ser apresentado à dor ela seja apresentada a potência da nossa negritude sabe ela consiga ter uma referência da beleza da inteligência da da criatividade enfim que ela consiga estar fortalecida na sua construção da construção da sua subjetividade enquanto pessoa negra porque a negritude não é um recorte. Ela é constituinte da personalidade da subjetividade. Ela é estrutural e luz e se a criança tem essa relação com essa estrutura que faz parte dela de maneira positiva esses acontecimentos esses episódios eles não vão levar essa criança a pensar que o problema é ela. Não estou dizendo que não vai doer vai doer impossível não dói. Mas diferente da maioria das pessoas da minha geração é que a gente sofre racismo imaginava que o erro era nosso cabelo e agora o nosso nariz ou eu era nossa boca ou ele era nossa cor não era o comportamento do outro. A criança que está fortalecida isso sua subjetividade enquanto criança negra ela vai saber que o erro não está nos traços dela.

 Quais os efeitos do racismo nas crianças negras?

Os efeitos do racismo são tantos e atingem diversas frentes que é difícil listar. Eu creio que um dos piores é o quanto o racismo dificulta as nossas relações sociais, o quanto nós somos expostos desde muito novos a um estresse que alguns especialistas chamam de stress tóxico e entramos em um estado de alerta constante. Que nos faz acreditar que a qualquer momento em qualquer instante podemos ser vítimas de algum tipo de violência que nós nos acostumamos. A nunca relaxar, a estarmos sempre prontos para uma dor, para reagir a uma dor e esses esse estresse é crônico. Não é que ele é prolongado. É uma exposição que não acaba. A qualquer momento, em qualquer situação nós podemos sim sofrer uma violência racial. Ele traz consequências físicas e emocionais e relacionais muito grandes. Então a criança negra aprende a estar nas relações em um lugar diferente da criança branca, ela aprende a se colocar nas relações de um jeito diferente da criança branca. Ela tem preocupações, ansiedades e angústias que uma criança branca jamais vai saber o que é. Então a construção da subjetividade de quem eu sou a partir das situações em que eu vivo é influenciada pelas relações que eu vivo. Ela é muito forte na criança negra e tem consequências muito duras.

Nós somos seres biopsicossociais e o social e o psíquico estão aqui muito apressadinhos nessa construção. O quanto o social psíquico interfere na biologia são transformados por uma sociedade que te vê como o menor, que te vê como um perigo, que te diz que você é um perigo, que faz com que você cresça duvidando das suas próprias qualidades. O racismo é tão bem azeitado, mas tão bem azeitado que nós começamos a acreditar que somos piores realmente, que os nossos cabelos não são bons o suficiente, que a nossa aparência não é boa o suficiente, nós começamos a acreditar no discurso de que existia um modelo ideal e que esse modelo é bem diferente de nosso. E a criança, ela é exposta a essa reatividade, a essa dor, muito nova. E é um cuidado que a gente pode ter enquanto pais, enquanto mães, mas que nós não conseguiremos sozinhos defender os nossos filhos por mais fortalecidos emocionalmente que eles sejam, esse estresse de que a qualquer momento eu vou precisar lidar com uma situação desagradável, dolorosa e difícil. Nós não conseguiremos tirar dos nossos filhos negros. Isso é muito triste de constatar.

Como ajudar a fortalecer a saúde emocional e a autoestima de crianças negras?

Eu acredito que um das formas mais eficazes de fortalecer a autoestima das nossas crianças é dando a elas referências negras e semelhantes a elas. Fazer com que essas crianças se vejam no mundo, com que essas crianças enxerguem a negritude, alguém com a pele delas, com cabelo delas, em lugares e lugares sociais que elas querem chegar. É uma das consequências mais cruéis do racismo e que ele nos tirou da maioria de nós a capacidade de sonhar. A gente cresceu escutando ali você não pode ir. Gente igual a você não chega nesse posto, nessa situação. Nesse lugar não tem essa profissão. Eu me lembro de uma amiga muito querida. O que ela queria ser bailarina. E ela parou de dançar porque ela falava “mas não tem bailarina negra”. E ela chegava na dança não tinha bailarina negra, ela não tinha uma referência e a falta de referência de alguém que já tinha chegado lá com a cor parecida com a dela fazia com que ela acreditasse realmente. “Eu estou querendo algo que não é para mim”. Então eu acredito muito firmemente na importância da referência, na importância de ler os autores negros e como os nossos filhos nos vejam ali lendo livros que são escritos por negros, que nós busquemos intelectuais negros para nos informar, que nós busquemos referências negras de cabelos, de maquiagem, de roupa, de todo tipo de assunto, cada assunto que você vai pensar em pesquisar, de culinária, o que quer que seja.

“Será que tem algum negro que produz conteúdo sobre isso? Eu vou botar aqui para a gente assistir” porque isso faz com que a criança cresça num mundo em que ela se enxerga em diversos lugares. O que ela pode sonhar. Porque ela não vai achar que aquele lugar não é um lugar para ela. É importante nessa construção que nós joguemos para os nossos filhos e para as nossas crianças o tempo inteiro o quanto elas são incríveis, que o mundo pode criticar e falar que não pode, não é que o mundo vai falar que não é o espaço delas, mas que cada atitude racista que acontecer tem um nome: racismo. E jamais fala do que as crianças são. A energia que a maioria de nós gastou para ser assimilada por essa sociedade foi desperdiçada. Eu acho que se as nossas crianças não desejarem ser assimiladas na sociedade, mas que elas sejam aceitas como elas são, a gente vai ter um nível de realização social e de transformação social muito maior do que jamais sonhamos. Eu sou muito otimista com a construção de um mundo novo em relação à nossa raça e a nossa cor. E com certeza as nossas crianças conscientes de si mesmas não vão aceitar caladas as mazelas sociais e as dores que são impostos a nós negros.

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