Em nossa matéria de capa, conheça a história do garoto negro que conquistou o Brasil com suas canções, este é Milton Nascimento

 

Texto: Amilton Pinheiro | Foto: Eraldo Platz | Adaptação Web Sara Loup

 

" Para mim até hoje o mais importante, o que vale, é contatar as pessoas, conversar com elas e poder conhecê-las um pouco mais" Milton Nascimento | Foto: Eralto Platz

" Para mim até hoje o mais importante, o que vale, é contatar as pessoas, conversar com elas e poder conhecê-las um pouco mais" Milton Nascimento | Foto: Eralto Platz

 

 

Milton Nascimento nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1942. É o carioca mais mineiro que conhecemos, mas muita gente acredita que nasceu em Três Pontas, em Minas Gerais, onde cresceu junto com a sua família adotiva. Em 1973, o artista era uma pessoa visada pelos órgãos repressores do regime militar, muito em função do disco Milagre dos Peixes, que foi quase totalmente censurado. Tinha prestado depoimentos em algumas delegacias e estava na mira dos “milicos” por conta de suas músicas “subversivas”.

As canções censuradas do disco foram lançadas apenas com Milton entoando seu canto, apenas a melodia, sem a letra, já numa demonstração do poder da sua voz, que mais parecia um coral.

Mas ele resolveu, em 1974, fazer um show do disco censurado no Theatro Municipal de São Paulo. Aí, foi a gota d água! Tornou-se procurado na cidade, e o coronel Erasmo Dias, então secretário de Segurança Pública de São Paulo, deixou isso bem claro. O cantor foi fazer um show na Argentina e, quando voltou, começou a receber ligações. Ameaças! Diziam que iam sequestrar e depois matar seu filho Pablo, fruto de um relacionamento que Milton mantinha na época com uma socialite paulista. Mesmo assim, ele continuou a visitar a cidade.

As ameaças, no entanto, tornaram-se constantes. Com medo de que algo acontecesse ao filho ou à mãe dele, decidiu que gostaria de vê-lo, mesmo que fosse a distância. Quando chegou ao local, seu pai tinha sido demitido no dia anterior. Nunca mais se encontraram.

Esses desencontros com o pai biológico e como filho de sangue (ele tem outros filhos adotados) são uma tônica na vida do artista. Durante muitos anos, Milton delegou sua carreira a alguns empresários que não souberam administrar o seu dinheiro. Ele teve que viver com pouca grana, quase sem bens materiais, a não ser um apartamento que tinha na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Essa carreira que não dava segurança financeira, e as perdas dos amigos ao longo da vida (Leila Diniz, Elis Regina e Ayrton Senna) quase o fizeram abandonar ofício que escolheu para a vida.

Milton chegou a realizar o que seria o seu último show em São Paulo, mas foi demovido da ideia depois que um garoto de um dos coros que o acompanhava naquela noite olhou para ele de forma enigmática. Nesta entrevista, ele abre suas memórias, remexe nas feridas e mostra que a sua travessia como homem e como artista é digna de aplausos.  Milton foi obrigado a se afastar de ambos, sem poder contar nada a ninguém. O cantor guardou o segredo dessa chantagem durante vinte anos, não podendo falar nem com seus pais, Lilia e seu Josino, que o adotaram ainda bebê. Para conviver com essa dor, a bebida foi uma fuga, o que o levou a ter problemas com álcool ao longo de sua vida.

Quer ver essa e outras reportagens da revista? Compre essa edição 158

Comentários

Comentários