Saiba mais sobre a Igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a terceira mais antiga do Brasil

 

TEXTO: Claudio Canto | FOTO: Rafael Cusato | Adaptação web: David Pereira

 

Conheça a igreja dos Homens Pretos | FOTO: Rafael Cusato

Conheça a igreja dos Homens Pretos | FOTO: Rafael Cusato

 

Construída no período colonial, época em que havia sérias restrições para os negros que quisessem frequentar as igrejas dos “senhores brancos”, a igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foi fundada em janeiro de 1711, com a união de negros escravizados e alforriados, além de abolicionistas. No início, era uma construção simples no mais importante centro financeiro da cidade de São Paulo, o Largo do Rosário (hoje conhecido como Praça Antonio Prado), porém, com a urbanização, a igreja foi demolida e instalada, na época, em um local mais afastado do centro urbano, onde fica hoje o Largo do Paissandu, famoso por abrigar pessoas em situação de rua, prostitutas, além de ser palco de dezenas de intervenções culturais. Com o passar dos anos, a Irmandade se firmou com um grande centro de preservação da história e da riqueza cultural do povo negro. “A Irmandade desenvolve um trabalho de preservação da cultura negra. Afinal, foi neste espaço que nasceram os mais importantes eventos dedicados à comunidade negra: Bonequinha do Café, o famoso Clube Aristocrata, bailes, além do importante movimento político, intitulado: Frente Negra, o maior movimento político negro de São Paulo. Um de seus idealizadores, Justiniano Costa foi também juiz-provedor da Irmandade. A participação das mulheres, eleitas pelas mesas administrativas, exercendo o cargo de rainha e de juíza, foi um dos marcos revolucionários da participação feminina na história do Brasil”, relata Jean Nascimento, presidente da Irmandade.

As Irmandades surgiram na Europa, ainda na Idade Média, e procuravam integrar a população de outras etnias ou classes desfavorecidas. Não é de se espantar que logo fosse formado no Brasil este tipo de associação, construída à margem do catolicismo, ao mesmo tempo em que os dogmas da igreja eram mesclados com os rituais de matriz africana, dando origem ao sincretismo religioso, que continua sendo praticado até os dias. Foi a solução encontrada para que os negros vivenciassem sua religiosidade. As Irmandades eram conhecidas por desempenhar um papel de apoio aos movimentos abolicionistas, a prática de compras de alforria era tema recorrente. Era uma porta aberta para os negros libertos promover a inclusão social, manifestar sua fé e resgatar um pouco da sua cultura. “Como naquela época continuamos desenvolvendo um trabalho de solidariedade aos que necessitam de apoio, mas, principalmente, preservamos a nossa história e a riqueza cultural. Nosso mural, com as fotos dos pioneiros, ajuda a manter vivos os 300 anos de nossa história. A capela é uma das que mais possuem imagens sacras, entre elas, a primeira imagem de Santa Edwiges trazida para o Brasil, no início do século 20”, afirma Jean.

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos recebe pesquisadores, religiosos, pessoas de outras cidades, estados e do exterior interessados em conhecer o interior da igreja, que apresenta ainda uma variedade de detalhes nas pinturas das paredes, nas vestimentas e adornos dos santos, entre outras preciosidades. O local também serve de palco para algumas manifestações políticas e intervenções culturais da comunidade negra, como a que ocorreu em frente à estátua da Mãe Preta para denunciar e despertar reflexões sobre a condição da mulher negra na sociedade. Um cenário artístico foi montado aos pés do monumento e foram entoadas canções em homenagem a Iemanjá e Oxum.

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