Pioneiro do gênero jamaicano em Minas Gerais, o músico Celso Moretti usa sua musicalidade a favor da negritude brasileira. Saiba mais sobre o reggae favela

 

TEXTO: Etiene Martins | Adaptação web: David Pereir

Conheça o Reggae Favela

Conheça o Reggae Favela

Nascido na cidade histórica de São João Del Rey, em Minas Gerais, e criado desde os sete anos na extinta favela Vila Nova Brasília, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, Celso Moretti, de 57 anos, foi movido pela influência da diáspora negra. De jovialidade impressionante, possui mais de 500 músicas escritas e, aproximadamente, 100 gravadas.

Sua trajetória artística foi como dançarino em grupo de soul music que rodou as terras mineiras com muito sucesso e, já no início dos anos 80, Moretti partiu para uma carreira solo como músico, inicialmente mostrando seu trabalho em festivais de música. Mas faltava ainda uma direção a seguir. Até que em 1981... “Vi uma notinha em uma capa de jornal que dizia: ‘Morreu o rei do reggae, Bob Marley’. Comecei a procurar discos dele em todas as lojas de Belo Horizonte e não encontrava nem um sequer. Lembro que uma colega de trabalho me trouxe dois LPs. Aí, eu pirei! “Pirei com o som apenas pelo timbre e a expressão da voz, pois não entendia nada de inglês”, relembra Celso Moretti, admirador de artistas alternativos, como Itamar Assumpção, Luís Melodia e Marcos Riba.

Influenciado pelo ritmo e pelo ícone jamaicano, Moretti e mais 11 amigos decidiram, em 1982, montar a primeira banda de reggae do Estado, a Nêgo Gato. “No início me ofereci para ser o compositor. Como a gente não tinha gravador, eu cantava para o vocalista aprender as letras e como ele não aprendia, os outros integrantes me pediram para que eu fosse o vocal da banda.” A Negô Gato se desfez em 1987, e lá foi Moretti buscar novos horizontes para a sua arte pouco convencional, porém, cheia de atitude. E foi dessa atitude como militantenegro que ele possuía há anos, que vieram a inspiração e a essência para suas novas composições. Moretti uniu a música com a paixão pela negritude e, em 1991, resolveu que a sua militância seria musical, com letras de protestos e engajada na realidade do negro brasileiro. “E aí comecei a ‘desembolar’ a ideologia Reggae Favela”, diz, referindo-se ao gênero musical que ele mesmo criou, oriundo do reggae jamaicano com misturas de outros sons que apreciava.

Quando questionado se a música, para ele, era um passatempo, já que trabalhava paralelamente em uma siderúrgica, o músico afirma que não e que, desde o início, acreditava no poder da música como agente transformador. “O que um músico diz em suas letras, entra na cabeça dos jovens e pode trazer efeitos irrevogáveis. Sei que o poder de um microfone, uma frase mal falada podem provocar até a derrota de um candidato a prefeito”, explica Moretti, que não faz música de entretenimento. Para ele, a coisa é muito mais séria. “Mesmo quem faz apenas para entreter, tem que ter ainda mais responsabilidade.”

Na contramão do que a mídia divulga, o mineiro, que defi ne seu estilo comoalternativo, tem quatro CDs lançados e um em fase de gravação. E mesmo com anos de estrada, é taxativo ao afi rmar: “Minha música não toca no rádio.” Ideologia com uma boa dose de raízes negras, aliada a letras contundentes, nem sempre interessa à grande mídia. Mas Moretti segue à margem dela, conquistando muitosfãs em todo o Estado e expandindo os horizontes de sua música, de sua mensagem, com turnês pela Bahia e pelo Espírito Santo, e dividindo palcos com artistas do calibre de Sandra de Sá e Edson Gomes. “Em Salvador, cantei para um público de 25 mil pessoas.

 

Quer ver essa e outras reportagens da revista? Compre essa edição número 164.

Comentários

Comentários