Dos direitos civis nos EUA ao pan-africanismo. A figura complexa de Kwame Ture

Por: Isadora Santos

Resgatar a identidade negra por meio das lutas que valorizam nossa estética, nossa cultura e que buscam atender nossos direitos um dia negados pelo ocidente é uma forma de retornar à África e reviver aquilo que nossos ancestrais em algum momento da travessia perderam. 

No texto de Molefi Kete Asante “Afrocentricidade: notas sobre uma posição disciplinar”, publicado no livro “Afrocentricidade. Uma abordagem epistemológica inovadora”, organizado por Elisa Larkin Nascimento, o autor apresenta uma visão sobre afrocentricidade que contempla os ideiais de Kwame Ture durante sua luta pela libertação de povos africanos.

“Começamos com a visão de que a afrocentricidade é um tipo de pensamento, prática e perspectiva que percebe os africanos como sujeitos e agentes de fenômenos atuando sobre sua própria imagem cultural e de acordo com seus próprios interesses humanos”.

Stokely Carmichael, conhecido como Kwame Ture, foi uma figura importante na luta pelos direitos de africanos e negros em diáspora. Nascido em 1941 na cidade de Porto da Espanha, capital de Trinidad e Tobago, país localizado no Mar do Caribe, na região da América Central, Carmichael cresceu em Nova York nos Estados Unidos.

Movimento estudantil e Freedom Rides

Foi nos EUA que Stokely Carmichael iniciou suas lutas. Ao ingressar na Howard University, o ativista se juntou ao Comitê de Coordenação Não-Violenta do Aluno (SNCC), realizando protestos estudantis, além de participar do Congresso de Igualdade Racial responsável pela organização do Freedom Rides, movimento criado em 1961 que realizava viagens de ônibus pelo Sul dos Estados Unidos para testar a decisão da Suprema Corte que considerou a segregação nos ônibus de transporte interestadual inconstitucional. Durante a viagem, pessoas negras tentaram utilizar banheiros e lanchonetes que permitiam o acesso apenas de pessoas brancas e foram espancados por uma multidão de brancos, além de terem alguns dos ônibus da comitiva bombardeados. Depois do ataque, o SNCC, presidida pelo estudante John Lewis, se dispôs a ajudar, indo na frente e os membros do comitê que estavam reconstituídos retomaram a viagem sob escolta federal até o Mississipi, onde foram presos. Alguns anos depois, em 1966, Carmichael se tornou organizador do comitê estudantil, dando continuidade ao trabalho de Lewis.

Nesse período, Stokley Carmichael também participou de movimentações ao lado de Martin Luther King Jr. atuando em ações não-violentas.

“Temos dito ‘liberdade’ por seis anos. O que vamos começar a dizer agora é ‘Black Power’.

Cansado do movimento de não-violência pela demora no progresso e dos assassinatos e espancamentos sofridos por manifestantes a favor dos direitos civis, Carmichael estava na Marcha Contra o Medo, realizada em Greenwood no Mississipi, fez um discurso icônico que mudaria os rumos das lutas por direitos civis, impulsionando os ideais de poder para o povo preto nos EUA, ao dizer a frase: “Temos dito ‘liberdade’ por seis anos. O que vamos começar a dizer agora é ‘Black Power’.”.

Um dos idealizadores do movimento Black Power, Carmichael empreendeu uma luta de resgate identitário que colocava o poder negro como principal objetivo nas lutas do ocidente. Suas palavras atraíram muitos jovens e também a imprensa que deu bastante destaque sobre o termo “Black Power” e o procurava para explicar do que se tratava.

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