E a barbárie continua…

Zulu Araujomaio 19, 20206 min
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‘Tá lá o corpo estendido no chão

Em vez de rosto, uma foto de um gol

Em vez de reza, uma praga de alguém

E um silêncio servindo de amém”

Impressionante como o estado de barbárie em que vive a sociedade brasileira nos surpreende a cada dia. Mesmo no período de uma pandemia sem precedentes, onde todos os órgãos de imprensa e as redes sociais do país clamam pela preservação da vida, a sanha assassina dos órgãos de segurança do nosso aparelho de estado se supera.

Acredite se puder, mas um helicóptero da Polícia Civil do Rio de Janeiro abandonou o corpo de um garoto, João Pedro Matos Pinto, de apenas 14 anos de idade, no pátio do Grupamento de Operações Aéreas da Lagoa, na Zona Sul do Rio de Janeiro, na última segunda feira (18), por volta das 15h, após uma operação policial desastrada e que ceifou a vida do adolescente.

Esse garoto brincava no quintal de sua casa, localizada no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio, quando foi baleado por policiais que tentava cumprir mandados de busca e apreensão na região. Como sempre, os policiais chegaram atirando, sem olhar a quem, balearam o garoto, pegaram o corpo, jogaram no helicóptero e o abandonaram a 40 km do local do incidente, sem sequer avisar seus familiares, que ficaram durante 48 horas, sem saber o que fazer.

Segundo relato de um primo do garoto e de outros adolescentes que estavam brincando com a vítima, além de levarem o corpo de João Pedro, os policiais ameaçaram atirar nos demais caso eles o seguissem, para saber o que fariam com o adolescente, embora todos informassem de forma desesperada que o mesmo não era traficante. Lamentável sob todos os aspectos essa forma bestial com que a Polícia, não apenas do Rio de Janeiro, mas de todo o país, tem agido quando se trata de jovens negros e pobres, ainda mais se forem residirem em favelas ou na periferia.

Embora saibamos da falência dos órgãos de segurança no Brasil, da violência com que eles agem e do desprezo que  tem para com a vida da população preta e pobre, dessa vez a Polícia Civil carioca se superou. Abandonar o corpo de um garoto de 14 anos, como se fosse um animal, no pátio de um quartel, é demais. É inimaginável que um país minimamente civilizado, no século XXI, trate este fato como algo normal.

A dor dos familiares atônitos, relatadas pela imprensa, com este fato insólito e macabro, é comovente: “Ele era nascido e criado na igreja, fazia parte do grupo jovem. A vida dele era escola, porque a mãe é professora…”. Mas quem disse que, para os matadores de plantão, interessa o que um garoto negro de 14 anos faz ou deixa de fazer? Ele é apenas mais um alvo e como tal deve ser abatido.

Mais uma vez, clamamos à sociedade brasileira, aos órgãos de justiça do país e, sobretudo, às autoridades constituídas e eleitas pelo povo que parem de nos matar. Em particular, parem de matar nossas crianças! Elas, assim como quaisquer outras, têm o direito de viverem e poderem contribuir para que tenhamos um futuro melhor em nosso país. Futuro este onde a cor da pele, o local onde mora ou a condição social não sejam motivos para morrer.

Toca a zabumba que a terra é nossa.

 

*Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião da RAÇA, sendo de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

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Zulu Araujo

Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

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