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Énia Lipanga: “Nascer mulher em Moçambique já é, por si só, uma sentença”

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Rachel Quintiliano

Rachel Quintiliano é fundadora e consultora sênior da Quintiliano: Planejamento e Comunicação. Jornalista, escritora, especialista em comunicação e saúde. Autora do livro Negra Percepção: sobre mim e nós na pandemia.

Em entrevista exclusiva à Raça, a escritora e ativista moçambicana fala sobre literatura, feminismo, educação e as possíveis pontes entre Moçambique e Brasil.


“Nascer mulher em Moçambique já é, por si só, uma sentença.” A reflexão de Énia Lipanga resume a força de um pensamento e escrita que não se descola da vida. Poetisa, jornalista e ativista, ela se reconheceu desde cedo como alguém que precisava transformar em palavras as dores e resistências do seu tempo. Hoje, sua literatura e seu ativismo se encontram para denunciar violências, questionar normas sociais e abrir caminhos para outras mulheres.

Foi a partir desse olhar que conversei com Énia, por e-mail, numa entrevista exclusiva em que ela fala sobre feminismo, raça, literatura e educação. Entre lembranças do ativismo na adolescência e reflexões sobre os desafios atuais em Moçambique, a autora também estabelece pontes com o Brasil, país onde teve seus primeiros contatos com o debate racial.

Nos próximos dias, o público brasileiro terá a chance de ouvi-la diretamente: Énia será uma das vozes de destaque na abertura do 6º Fórum Internacional Senac de Educadores, que acontece de 8 a 11 de setembro, online e gratuito. No painel “O papel da escola na construção de vínculos”, ao lado de Paula Beatriz de Souza Cruz e com mediação de Andreia Peretti Sangaletti, ela vai refletir sobre diversidade, identidade e pertencimento.

A escritora Toni Morrison (1931-2019) costumava dizer que não escrevia para responder às expectativas do olhar branco, mas a partir da sua própria experiência como mulher negra. Você sente que seu pensamento e literatura também é informada pelo fato de ser uma mulher negra “racializada”?

Em Moçambique, a discussão racial não é tão explícita, já que vivemos num país de maioria negra. Ainda assim, é possível observar a presença do privilégio branco, sobretudo na ocupação de alguns cargos de maior destaque e poder, ainda que em minoria.

A minha escrita nasce, sobretudo, das vivências das mulheres, porque desde cedo me percebi como tal e compreendi que, no meu país, nascer mulher já é, por si só, uma sentença. As questões ligadas à raça e ao racismo só as experienciei de forma mais direta no Brasil, onde tive meus primeiros contatos com esse debate e também situações concretas de racialização. Importa, no entanto, referir que em Moçambique enfrentamos um fenômeno silencioso: a não aceitação da cor da pele e do cabelo crespo, sobretudo entre mulheres jovens. Esse processo está profundamente ligado à globalização e à imposição midiática de padrões de beleza que tornam os nossos traços menos valorizados. Moçambique não escapa a essas dinâmicas, que também são uma forma de racismo estético e cultural.

Em Moçambique, sua atuação une literatura, jornalismo e ativismo social. Como essas dimensões se cruzam na construção de narrativas que dão centralidade à experiência negra?

Neste momento, o meu jornalismo está muito ligado à escrita de artigos de opinião sobre as lutas feministas moçambicanas, sobre o combate à violência baseada no gênero e também sobre as normas sociais que acabam por perpetuar diferentes formas de violência, que atingem tanto mulheres como homens. Essa mesma preocupação atravessa a minha literatura. Quando escrevo poesia ou prosa, quase sempre volto a esse tema. Vivo num país onde mulheres são assassinadas todos os dias, onde debates sobre gênero e direitos das mulheres ainda são censurados e silenciados. Então, mesmo que haja lirismo na minha escrita, nele também se encontra a dor feminina. Desde a adolescência, percebi-me ativista: reunia grupos de meninas da minha idade para conversarmos sobre a insegurança que sentíamos na escola. Esse gesto simples foi o início de um caminho que até hoje alimenta tanto a minha escrita quanto a minha ação

Ao falar de vínculos e diversidade na educação, que papel você acredita que a questão racial desempenha nesse processo?

Em Moçambique não existe uma centralidade do debate racial como no Brasil, mas ainda assim a educação precisa contemplar a diversidade, seja de gênero, de etnias, das nossas línguas nacionais ou de realidades. Falar de vínculos é também falar da valorização dessas identidades. A escola deve ser esse espaço seguro e acolhedor, capaz de reconhecer e abraçar as diferenças. Mais do que transmitir conteúdos, a escola é o lugar onde se constroem relações de respeito, empatia e pertença.

O Brasil é um país com histórias de colonização e desigualdade racial que talvez dialoguem com a história e realidade de Moçambique. Como você espera que sua produção literária/narrativa e pensamento sejam recebidos aqui, a partir da oportunidade de participação deste evento?

O Brasil carrega uma história de colonização e desigualdade racial que dialoga profundamente com as marcas que também atravessam Moçambique. A minha escrita reflete esses caminhos comuns dedicando-se a exaltar a nossa cultura e a preservar a nossa identidade como forma de resistência e de memória. Por isso, o que espero é que continuem a acolher a minha voz. Que nela encontrem não apenas a dor partilhada, mas também as nossas heranças, os nossos saberes e as nossas múltiplas formas de sonhar e reinventar o futuro

 

O que você considera essencial que leitoras e leitores brasileiros conheçam da literatura africana escrita por mulheres negras hoje?

A literatura africana escrita por mulheres negras é múltipla e necessária. Ela fala de ancestralidade, corpo, memória, espiritualidade, violências e afetos de formas muito diversas. Autoras como Noémia de Sousa e Paulina Chiziane abriram caminhos fundamentais; Lília Momplé também nos deixou uma obra que é pilar da nossa memória coletiva. Há ainda vozes contemporâneas que representam esta resistência, como Hera de Jesus, Deusa de África e Eliana Zualo, Vergília Ferrão, entre outras manas, que mostram que a literatura moçambicana continua a nascer e a reinventar-se. É claro que, neste diálogo, também encontramos uma ponte com a escrita de Conceição Evaristo, no Brasil, que partilha conosco a luta por uma escrita enraizada na experiência das mulheres negras. Mas mais do que apenas ler-nos à distância, recomendo que visitem Moçambique, porque a nossa literatura não é feita apenas de livros, ela vive nos corpos, nas vozes e na oralidade à volta da fogueira.

 

Rachel Quintiliano é fundadora e consultora sênior da Quintiliano: Planejamento e Comunicação. Jornalista, escritora, especialista em comunicação e saúde. Autora do livro Negra Percepção: sobre mim e nós na pandemia.

Essa publicação é fruto de uma parceria especial entre a Revista Raça Brasil e o Fórum Brasil Diverso, evento realizado pela Revista Raça Brasil nos dias 10 e 11 de novembro, que celebra a diversidade, a cultura e a potência da música negra brasileira. Não perca a oportunidade de participar desse encontro transformador — inscreva-se já http://www.forumbrasildiverso.org

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