Matéria especial sobre a região da cracolândia, na cidade de São Paulo

 

TEXTO: Renato Bazan | FOTOS: Marcelo Camargo-Agência Brasil/Shutterstock | Adaptação web: David Pereira

Reportagem especial sobre a cracolândia | FOTO: Marcelo Camargo-Agência Brasil/Shutterstock

Reportagem especial sobre a cracolândia | FOTO: Marcelo Camargo-Agência Brasil/Shutterstock

"Tirando os nóia, o bairro é bom”, diz um ditado do bairro da Luz, bem no centro da cidade de São Paulo. Palco da mais virulenta cracolândia de todo o país, a vizinhança foi a primeira a receber, ainda na década de 90, a versão sucateada da cocaína, e luta há 20 anos para reaver seu status de destino de viajantes. Mas o que mudou desde as falidas tentativas de higienizar a região em 2012? E quem são as principais vítimas desse submundo psicotrópico?

Entender esse incidente social começa, antes de qualquer outra coisa, por entender a droga. Criado como uma mistura de pasta-base de cocaína re nada com bicarbonato de sódio e água, o crack atrai seu usuário pelos intensos dez minutos de euforia que traz, praticamente desligando os sentidos de quem usa durante seu efeito. Para o mercado do crime, é um negócio duplamente rentável: além de a droga viciar muitos logo no primeiro uso, sua ação sobre o sistema nervoso central é tão poderosa que ela pode ser feita até com as piores sobras da produção da cocaína, vendida a preços mais altos. Como golpe de misericórdia, muitos laboratórios adicionam elementos tóxicos como cimento, cal, querosene e acetona para fortalecer o vício.

No Brasil, chegou ainda na década de 80, poucos anos após ser criada nos Estados Unidos, e sua natureza tornou-a rapidamente a droga de preferência da população em situação de miséria, que não podia manter o vício em outros tóxicos. A combinação de pobreza e dependência química logo traçou seu território: entre as ruas do centro de São Paulo, surgiu o estigma da “cracolândia” como espaço de sujeira, perigo e vergonha. Nos últimos anos, a situação só se agravou: de acordo com os pesquisadores Heitor Frúgoli Jr. e Enrico Spaggiari, do departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo, houve um “aumento considerável” do número de usuários, inabalados pelas ações de repressão do governo do estado.

Cracolândias pelo Brasil: Falar em cracolândia como um acontecimento local, no entanto, não é mais uma opção para quem entende do assunto. O alarme começou a soar mais alto de alguns anos para cá, tanto dentro de São Paulo quanto fora. Na capital paulista, um novo estudo da prefeitura revelou nada menos que 30 novas cracolândias, surgidas da repressão policial e de ações higienistas impostas em anos recentes, tanto por parte do governo quanto por grupos civis. Fugindo desses agentes, bandos de viciados se estabeleceram em outros bairros, e a Polícia Militar agora os conta em 27 bairros diferentes. Houve relatos até mesmo de usuários escondidos nos trilhos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, onde a ausência de luz os tornaria alvos mais difíceis.

“O uso do crack surge mais acentuadamente nas grandes cidades e, especialmente, nas metrópoles. Mas temos notado que o crack também é droga presente em pequenos e médios municípios”, afirmou o secretário nacional de Políticas sobre Drogas, Vitore Maximiano | FOTO: Marcelo Camargo-Agência Brasil/Shutterstock

“O uso do crack surge mais acentuadamente nas grandes cidades e, especialmente, nas metrópoles. Mas temos notado que o crack também é droga presente em pequenos e médios municípios”, afirmou o secretário nacional de Políticas sobre Drogas, Vitore Maximiano | FOTO: Marcelo Camargo-Agência Brasil/Shutterstock

Em nível nacional, a coisa não é muito diferente. Mesmo em municípios do outro lado do país, como Maceió ou Salvador, há relatos do surgimento de cracolândias. No caso de Maceió, em específico, o vereador João Luiz (DEM) contou em plenário ter observado grupos de usuários de crack em frente ao prédio da Secretaria Municipal de Saúde, no centro da cidade, e lamentou a falta da segurança que se instalou por ali. O mesmo foi observado pelo Governo Federal através da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), que estima existirem no Brasil, hoje, pelo menos 1 milhão de usuários da droga espalhados pelo território nacional - 400 mil apenas no estado de São Paulo.

“O uso do crack surge mais acentuadamente nas grandes cidades e, especialmente, nas metrópoles. Mas temos notado que o crack também é droga presente em pequenos e médios municípios”, afirmou o secretário nacional de Políticas sobre Drogas, Vitore Maximiano, baseando-se nos resultados do 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, de 2012, feito pela Universidade Federal de São Paulo. O documento aponta um número assustador em sua amostragem de São Paulo: 194 cidades declararam ter alto nível de problema decorrente do consumo de crack - quase um terço dos 645 municípios do estado.

Algumas regiões do Brasil são particularmente suscetíveis à influência maléfica do crack. A CNM identificou uma ligação forte entre locais de forte migração de trabalhadores e o uso da droga, por exemplo: o corte da cana ou atividades de mineração em cidades-dormitório, normalmente sob regimes de trabalho superexploratórios, faz com que muitos dos assalariados busquem um pouco de conforto no efeito da droga. Em outra circunstância, a confederação também encontrou a tendência de formação de cracolândias em municípios com forte vida noturna.

Para a população desses municípios afetados, os principais resultados do tsunami psicoativo são medo e insegurança. Em última instância, regiões dominadas pelas legiões de viciados sofrem uma grande depreciação, o que é particularmente visível no bairro paulista da Luz: em 2014, uma pesquisa revelou que a movimentação comercial da vizinhança poderia ser duas vezes maior, não fossem os crimes e assaltos que espantam os visitantes. A região também tem duas das escolas com as maiores taxas de abandono registradas - em uma delas, os alunos precisam passar pelo meio dos usuários de drogas para chegar ao metrô.

A Polícia Militar tenta, em vão, manter os viciados na linha. Mesmo com rondas reforçadas, a região desponta como um dos bolsões de violência da metrópole, e fica praticamente deserta depois do pôr do sol, quando os drogados andam livres pelas ruas. “A maioria das reclamações é de pequenos furtos, atrapalhar a passagem dos edifícios, ficar embaixo das marquises atrapalhando a passagem dos edifícios, entrada e saída de veículos, passagem de pedestres, de cadeirantes, de idosos, todo esse tipo de reclamação a gente tem atendido”, disse Thaís Helena Cardoso de Lima, inspetora da Guarda Civil Metropolitana, em entrevista recente à Folha de S. Paulo. A maior preocupação, naquele momento, era de evitar a invasão de um prédio da região.

Acompanhe a segunda parte da matéria.

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