Estudo analisa a construção da identidade afro-baiana por meio da narrativa do seriado “Ó Pai, Ó”, que fez sucesso em 2007 e revelou ao país os atores do Bando de Teatro Olodum

 

TEXTO: Maitê Freitas | FOTO: Alex Oliveira/Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Lázaro Ramos em "Ó pai, Ó" | FOTO: Alex Oliveira/Divulgação

Lázaro Ramos em "Ó pai, Ó" | FOTO: Alex Oliveira/Divulgação

Quem não se lembra do seriado protagonizado por atores e atrizes negras cheios de sotaque, cores carregadas nas cenas e com uma trilha que ia do axé music tradicional ao forró? Lembrou? Em 2008, quando foi transmitida a primeira temporada do seriado “Ó Pai, Ó”, as opiniões das pessoas se dividiram: no sudeste, críticas à encenação, tida como cheia de estereótipos; já os baianos sentiram-se representados. Contudo, “Ó Pai, Ó”  trouxe à teledramaturgia brasileira um dado novo: a Bahia sendo representada pelo seu próprio povo. Mostrando uma Bahia que foge do imaginário criado por Jorge Amado e do lirismo de Dorival Caymmi, o seriado mostrou uma Bahia próxima da realidade de quem vive lá e conhece a fundo as vielas e cortiços do Pelourinho e da Cidade Baixa.

Foi pautada na própria experiência de ser baiana que a roteirista e comunicadora social Dayse Porto resolveu ter como objeto de estudo o seriado “Ó Pai, Ó”, tema de sua tese de mestrado em semiótica, Dayse analisa a construção dramatúrgica e as peculiaridades do cotidiano retratado nos diálogos entre as personagens, a construção corporal, trilha sonora, direção de arte e as criticas sociais ao contexto miserável e de abandono social aos quais estão submetidos os moradores da Cidade Baixa.

“Ó Pai, Ó” integra a história da teledramaturgia brasileira e se destaca por trazer às telas um elenco de atores e atrizes que tiveram como origem o Bando de Teatro Olodum (grupo de onde saiu Lázaro Ramos, protagonista da série) e um elenco predominantemente negro. A presença afrodescendente na televisão brasileira ainda está atrelada à personagens secundários, bandidos, prestadores de serviço e miseráveis. A série, embora não tenha fugido da tendência, aproveitou o espaço e a narrativa para criticar a condição de abandono a qual estão submetidos os baianos e muitos afrodescendentes moradores das periferias das capitais brasileiras.

Violência, roubo, tráfico, prostituição e a luta diária por sobrevivência foram temas recorrentes do seriado. Em sua tese, a pesquisadora Dayse avalia minuciosamente cada episódio, analisa as construções simbólicas presentes e a relação delas com a oralidade na narrativa e a crítica social feita na obra.

Leia a entrevista com Dayse Porto.

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