Conheça a vida e a obra de dois dos mais importantes autores brasileiros que escrevem sobre a África para jovens e crianças

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTOS: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Júlio Emílio Braz que já publicou 169 livros infanto-juvenis | FOTO: Divulgação

Júlio Emílio Braz que já publicou 169 livros infanto-juvenis | FOTO: Divulgação

Há alguns anos, a Lei 10.639/03 determinou que nas escolas de nosso País se ensinassem história e cultura afro-brasileira e africana. Muito antes disso, porém, escritores como Júlio Emílio Braz e Rogério Andrade Barbosa – que estão lançando respectivamente, pela Editora Melhoramentos, O griot - histórias que ouvimos na África e NduleNdule - assim brincam as crianças africanas – já se interessavam em contar, por meio de livros infantis e infanto-juvenis, lendas africanas e histórias de personagens e civilizações que floresceram no Continente Africano.

Hoje, diferentemente de todos os demais escritores que produzem uma literatura para combater o racismo pela raiz, ambos podem viver exclusivamente dos livros que escrevem. O carioca Júlio Emílio Braz agradece à memória de uma tia que, em sua infância na favela da Maré, lhe dava livros de presente. O prazer da leitura fez dele um escritor que já publicou 169 infanto-juvenis.

Além de O Griot, um sábio que nos dias atuais trabalha como motorista de táxi e intermedia confl itos entre jovens islâmicos e cristãos, Júlio está lançando Jovens Náufragos e suas Batalhas (Global). A maioria de suas obras é de temática social, da qual grande parte é sobre a inserção do negro na sociedade, ou mesmo sobre a autoaceitação e o respeito à diversidade, entre outros. No início da vida profissional, Júlio escrevia histórias em quadrinhos e livrinhos de bolso de faroeste. “Foram 412. Muita gente pensava que eram traduções de publicações americanas, mas eu me inspirava na revista Seleções e em filmes de cowboy. Para ganhar um dinheirinho, eu tinha de escrever de 10 a 12 por semana.” Seu primeiro infanto-juvenil foi Saguairu, a história de um índio à caça de um lobo guará no Pantanal Matogrossense, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de autor revelação, em 1979.

A partir daí, Júlio passou a se dedicar com exclusividade à arte de escrever para adolescentes. Com a assinatura da lei pelo presidente Lula, em janeiro de 2003, todas as editoras correram à procura de escritores para colocá-las nesse novo nicho editorial. “Foi aí que escrevi Lendas Negras. Muitas das fábulas que conhecemos são inspiradas em lendas africanas. A lenda brasileira O Macaco e a Onça, por exemplo, é inspirada na africana O Leopardo e o Macaco. Por isso, comecei a pesquisar e escrever com o objetivo de desconstruir a imagem estereotipada que o brasileiro tem da África”, explica Júlio, que lançou Lendas de Moçambique e pretende, aos poucos, escrever histórias de povos das diversas regiões africanas. “Minhas pesquisas são em bibliotecas e por meio dos muitos livros que encomendo para recontar essas histórias à minha maneira. Meu grande sonho, porém, é ir à África, visitar as escolas e ouvi-las da boca do próprio povo”, diz o escritor.

 O escritor Rogério Andrade Barbosa | FOTO: Divulgação


O escritor Rogério Andrade Barbosa | FOTO: Divulgação

Aos 53 anos, esse filho de uma lavadeira, que estudou  contabilidade no ensino médio e queria ser professor, finalmente está concluindo a graduação em História e quer fazer mestrado em Filosofia. “Meu estímulo principal é comparar notas com meu filho Igor, de 14 anos, que quer jogar basquete nos EUA – conta rindo –. Mesmo sem destaques midiáticos, minhas obras, como Crianças na Escuridão, sobre meninas de rua, na Praça da Sé; Enquanto houver vida viverei, sobre jovens com AIDS; Pretinha EU? e A menina que tinha um céu na boca, vendem excepcionalmente e têm ajudado muitos jovens, Brasil afora.”

Rogério Andrade Barbosa, mesmo tendo cor clara, garante que é um afrodescendente graças ao avô negro. Graduado em Letras e pós-graduado em Literatura Infantil, esse contador de histórias, escritor e professor, já publicou 91 livros infantis e juvenis, em 20 anos de carreira (pelo menos metade sobre temáticas africanas). Ele foi beber na fonte para assumir a missão de dar um “banho de África” na alma de estudantes e professores brasileiros: “Em 1979, eu li que a ONU estava convidando professores para trabalhar na Guiné Bissau, e me apresentei. Fui trabalhar num país muito pobre, mas com crianças muito interessadas e dedicadas em aprender.” Ao retornar ao Brasil, em 1981, deu-se conta de que não havia praticamente nada para crianças sobre a cultura africana nas livrarias e feiras de livros. Sua primeira obra nesse gênero foi Bichos da África (Lendas e Fábulas), em quatro volumes, traduzido e publicado na Alemanha, Argentina, no México e nos Estados Unidos: “Mandei os originais para várias editorase ouvi muitos nãos. Aí, a Melhoramentos aceitou publicar. Vendeu um milhão de exemplares e ganhou um prêmio Jabuti. Larguei o magistério para me dedicar exclusivamente à literatura”, conta. No período em que moravam na Guiné, Rogério e um amigo da Bahia viajaram por outros países africanos e ouviram muitas histórias. “Depois de meu retorno, voltei ao Continente Africano algumas vezes. Fui ao Egito, Marrocos, Angola, Tanzânia. Conheço 15 países da África e devo viajar em breve para a cidade sul-africana do Cabo. Em Angola, nasceram dois de meus livros. Durante uma viagem recente a Moçambique, fui conhecer uma escola rural na divisa com a África do Sul e, das histórias ouvidas, nasceram outros dois: o de contos Karinganawa Karingana e NduleNdule, sobre as brincadeiras infantis que vi por lá.” No ano passado também Madiba, o Menino Africano.

Vários de seus livros, como Sundjata, o Príncipe Leão e Contos ao redor da fogueira, receberam a classificação de “Altamente recomendável para jovens”, ou “Altamente recomendável para crianças”, além de integrarem acervos e catálogos internacionais. As obras ABC do Continente Africano, Uma ideia luminosa e Duula, a mulher canibal ocupam várias listas de obras recomendadas. Uma das atividades preferidas do autor é proferir palestras e cursos a professores sobre cultura africana. “A maioria não está preparada para cumprir a lei, seja por desconhecimento ou por falta de interesse ou sensibilidade com relação à diversidade cultural brasileira, grande parte dela herdada das culturas africanas”, comenta. Por meio da literatura infantil e juvenil, o autor assumiu o importante papel de combater o racismo e os estereótipos sobre a África e seus filhos. “O livro é um instrumento poderoso nas mãos do professor e transformador nas mãosdos leitores de qualquer idade”, conclui.

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