A existência das semanas de moda afrobrasileira ou dos espaços de discussão feita por pessoas negras, sempre vêm acompanhadas de um questionamento sobre exclusão, seja este como mote que embasa a necessidade de eventos específicos ou por outro lado, as falas de pessoas brancas apontando que se sentem excluídas do mesmo. Podemos observar que para grupos humanos que vivem usualmente em situação de privilégio, alguns minutos do outro lado do jogo produzem reações bem específicas e o que chamamos de exercício dos privilégios deveria servir como ato contínuo de reflexão.

 

Durante o 1o Fashion Black POA, conversei com algumas convidadas das mesas de debate e destaco aqui a entrevista com Cris Guterres, jornalista paulista e assessora de comunicação do Projeto Social `Periferia Inventando Moda`:  "Os nossos eventos são construídos para todas as pessoas, mas diferentemente da maioria dos eventos de moda, estes nos colocam num lugar de protagonismo para que a partir dessa troca de experiências possamos analisar qual o nosso papel nesse campo e como queremos ser vistas. Nesse espaço também estamos refletindo sobre como deve ser a nossa participação como criadoras, comunicadoras e especialmente consumidoras. De que maneira nós somos vistas sob várias perspectivas, como devemos ser representadas e para quem queremos vender? A importância desses espaços de discussão é a possibilidade de nos ajudar a entender juntos que ainda estamos muito distantes do nosso objetivo, ainda temos um espaço muito pequeno sob a justificativa de que a população negra não compra ou de que só devemos vender nossos produtos entre nós.”

 

Cris Guterres tem viajado pelo mundo para cobertura de importantes eventos, como o Afropunk, e relata como se vê exotizada e objetificada a cada trânsito pelo mundo. Ela analisa a reação das pessoas à sua presença como um reflexo da distorção e da ausência de representatividade de mulheres negras nos meios de comunicação e vivencia isso na dificuldade que tem como jornalista de encontrar fotografias de pessoas negras para ilustrar os temas ou até mesmo para comprar nos bancos de imagens. Ressalta que essa rede colaborativa facilita também a menção dos trabalhos umas das outras e as indicações, tão comuns nesse campo, já que muitos nomes nem são noticiados. Para ela, um dos projetos mais exitosos da colonização foi a desconstrução da nossa imagem, interferindo na possibilidade de agirmos como comunidade e muitas vezes reforçando a dificuldade de acreditar em nós mesmas e de fazer as coisas em conjunto.

 

Com a invisibilidade estrategicamente provocada sobre as nossas produções, são estes os eventos que nos dão a possibilidade de sabermos o que cada uma está construindo nos seus espaços de atuação e observar como hoje se efetiva uma factível ocupação desses espaços de privilégio, onde comumente somos vistas como serviçais. A partir daqui vemos as nossas ações políticas cada vez mais fortalecidas e também por esse motivo, os incômodos cada vez mais evidentes e transmutados nas diversas formas de apropriação cultural. Estejamos atentas!

 

CAROL BARRETO

Mulher Negra, Feminista e como Designer de Moda Autoral elabora produtos e imagens de moda a partir de reflexões sobre as relações étnico-raciais e de gênero.  Professora Adjunta do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade - FFCH – UFBA e Doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade – IHAC – UFBA, pesquisa a relação entre Moda e Ativismo Político.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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