Em sua coluna, Moisés da Rocha escreve sobre a participação dos jangadeiros no processo de abolição dos escravos

 

TEXTO: Moisés da Rocha | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

O colunista Moisés da Rocha | FOTO: Divulgação

O colunista Moisés da Rocha | FOTO: Divulgação

O primeiro “dragão do mar”

"Há muito tempo, nas águas da Guanabara, o dragão do mar reapareceu...”. Assim começa um dos maiores sucessos da MPB, de autoria de João Bosco e Aldir Blanc, numa irrepreensível interpretação de Elis Regina. Essa música selou de vez a consagração do herói negro João Candido, que liderou a chamada Revolta da Chibata em 1910, uma verdadeira mácula na história de nossa Marinha de Guerra que, mesmo após a Abolição da Escravatura, utilizava essa forma de castigo sobre os marinheiros comuns. Não é mais segredo também que a nossa gloriosa Marinha de Guerra, até os dias de hoje, é a Força Armada que conta com o menor número de afrodescendentes em seu corpo de oficiais. Relembrando um pouco mais do desfecho da Revolta da Chibata, nunca é demais lembrar que os marinheiros-praças, revoltados, firmaram acordo que previa anistia para cessar a greve. Acordo esse que foi quebrado por parte do governo, resultando na ida de todos para o famigerado presídio de Ilha das Cobras. Poucos marinheiros, entre eles João Candido, sobreviveram. Depois da libertação, João viveu de trabalhos informais na Baixada Fluminense, onde faleceu, como membro ativo da Igreja Metodista. Mas, afinal, e o primeiro Dragão do Mar? Para o povo, jangada e jangadeiros se tornaram algo romântico, como se nota em músicas, pinturas, fotografias. Mas, na realidade, segundo o escritor, historiador e biógrafo Edmar Morel, “na luta antiescravagista, a jangada tem papel destacado, como o tivera de resto em outras ocasiões... na luta contra Solano de 1864 a 1870, integrando as guarnições de navios mercantes e de guerra, já tinham importância também os jangadeiros, reafirmado sua bravura e seu desprendimento, como o fizeram, aliás,  durante quase um século, na praticagem e socorro naval na costa, salvando barcos, cargas e vidas preciosas, prestes a desaparecerem nas profundezas dos mares”.

Em 1881, influenciados pela recém fundada Sociedade Cearense Libertadora, jangadeiros decidiram que nenhuma jangada transportaria mais escravos para os navios. “Mesmo com a ameaça policial: no porto do Ceará não se embarcam mais escravos. abaixo a escravatura!, escreveram. Nessa primeira manifestação, destacaram-se os jangadeiros José Napoleão e Pedro Artur Vasconcelos. Mas para a resistência e perseverança na decisão tomada, precisavam de um líder. Convocaram então o prático do Ceará, Francisco José do Nascimento, o “Chico da Matilde”. Com a recusa do II Batalhão do Exército em assegurar o carregamento de escravos, os mercadores negreiros tentavam burlar os seus jangadeiros, procurando fazer carregamentos clandestinos. Mas quando surgia algum navio, eram seguidos - principalmente por Francisco José do Nascimento -, até estarem fora da área portuária, não se atrevendo a atracar. A notícia se espalhou. Grupos libertários, apoiados por jornais, políticos e por grande parte da sociedade em geral, vararam o sertão nordestino bradando sempre o grito de liberdade. Fortaleza passou a ser a capital da liberdade, recebendo muitos escravos foragidos. O movimento pelo fim da escravatura fervilhava. José do Patrocínio, nacionalmente famoso pela sua luta libertária e sabedor da força de Francisco José do Nascimento, foi ao Ceará e conversou longamente com o líder dos jangadeiros e do povo praieiro.

Em 1883, sempre com a presença dos paladinos da liberdade – José do Patrocínio e os Libertadores de Fortaleza –, a pequena cidade de Acarape, distante cerca de sessenta e seis quilômetros de Fortaleza, deu o primeiro grito de libertação coletiva de escravos. Em 24 de maio de 1884 – quatro anos antes da publicação da Lei Áurea –, Fortaleza também libertou os seus africanos. As notícias das façanhas de Francisco José do Nascimento e seus jangadeiros, é claro, chegaram aos abolicionistas da Corte do Rio de Janeiro, para onde se dirigiram e foram recebidos com grande festa por muitos dias, saudados como os heróis da primeira libertação em massa de escravos. Ele foi chamado por José do Patrocínio de “Lobo do Mar”, mas foi num artigo de jornal que ficou eternizado como o “Dragão do Mar”. Durante sua permanência na Corte, lhe ofereceram uma alta quantia em dinheiro, que ele terminantemente recusou: “Sou um homem pobre, mas não vim à Corte por causa de dinheiro. Por que não compram a Carta de Liberdade de alguns escravos com esta importância?”, indagou. Depois das homenagens por todo o nordeste, esse mesmo herói, que seria nome de rua, estação de rádio, clube de futebol e clube literário, teve outras aventuras heroicas. Em uma delas, liderou os praieiros, convocando (por sorteio) chefes de família e negros para lutar no sul do país, deixando isentos os solteiros e filhos da classe privilegiada. Na ocasião, houve derramamento de sangue no enfrentamento com as forças do exército. Em 1914, o “Dragão do Mar” morreu pobre, mas deixou seu nome na história. Ele foi um grande herói negro. Dica de leitura: “Vendaval da Liberdade (A luta do povo pela abolição)”, Edmar Morel, Global Editora.

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