Negro, sim!

Mauricio Pestanaabril 3, 20205 min
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Nas primeiras horas de quinta-feira (01), durante uma conversa com algumas mulheres que estão com ele confinadas no Big Brother Brasil, Babu Santana fez uma explanação sobre o que ele considera importante destacar entre as palavras negro e preto.

Na manhã seguinte, as redes sociais ganharam um inflamado discurso sobre o assunto, recebido pela maioria como “aula”.

Torço muito pelo Babu e respeito muito o trabalho que ele tem realizado no reality, a fim de informar e conscientizar não só os participantes, mas todos que assistem e ficam cientes do que acontece no programa, no que se refere a questão racial. Mas discordo de sua fala.

Existe uma confusão muito grande no Brasil sobre a questão racial e a palavra negro, sobretudo porque nos inspiramos por vezes nas falas e lutas dos negros da América do Norte. Porém existem diferenças culturais, históricas e sociais que nos diferem deles. Uma palavra que em inglês, nos EUA, pode soar preconceituosa, aqui no Brasil serviu para unificar.

Explico: a palavra negro, tanto quanto a palavra preto e outras, no dicionário em português, são extremamente preconceituosas. Mas nós fizemos ressignificações. A palavra negro foi muito importante nas últimas décadas pela forma como a ressignificamos e como unificamos a nossa luta através dela.

Foi a partir do termo negro que conseguimos juntar pretos de diversas tonalidades de pele numa só luta. Hoje uma mulher negra mesmo de pele clara, se assume como negra e assume a nossa luta, unificada pelo movimento negro.

Podería citar dar vários exemplos, mas o mais importante é que foi através dessa ressignificação da palavra negro que conseguimos colocar no censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pretos e pardos como negros. Conseguimos ver aquela faixa de 56% da população negra porque pudemos juntar. Sabemos que preto é uma cor, sabemos que os pretos são os mais discriminados na escala do colorismo  preconceituoso que a sociedade brasileira criou e os dados mostram inclusive que somos mais discriminados no mercado de trabalho do que as pessoas negras de pele mais clara. Porém, sabemos muito a importância que foi usar o termo para unir pretos de diversas cores na luta antirracista. O que difere, por exemplo, da luta nos Estados Unidos. Negro, para nós, tem a mesma força que os americanos utilizaram na palavra afro-americano, ou seja, toda aquela pessoa que tem uma gota de sangue negro é um afro-americano e a sociedade branca sabe muito bem identificar isso seja nos EUA, seja no Brasil.

Os racistas sabem muito bem quem são os negros e pretos. Nós é que precisamos estar atento a isso. E viva a palavra negro!

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Mauricio Pestana

Jornalista, publicitário, cartunista e escritor. Exerceu o cargo de Secretário de Promoção da Igualdade Racial da Cidade de São Paulo de abril de 2013 a dezembro de 2016. Atualmente é Diretor executivo da Revista Raça.

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Há 24 anos no mercado, a pioneira e mais antiga publicação negra do Brasil.

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