Negros ao Mar

Se você colocar num site de busca as palavras “negros”, “barcos”, “embarcação”, a resposta será única: navio negreiro, remetendo aos navios de carga para o transporte de pessoas escravizadas, especialmente os escravizados africanos, até o século 19. Mas estamos no século 21. Mais precisamente em 2020. No Brasil, embora seja exceção, negro, barco e embarcação remetem a Castro Boat. A única empresa náutica pertencente a um homem negro.

“Meu pai tinha um salão de beleza no subúrbio, mas sempre fomos uma família do mar. Montei a Castro Boat Tour para ser um serviço de charter náutico de luxo, algo inexistente entre os nossos. Hoje, temos 47

embarcações no portfólio, em todo o Brasil”, conta o jovem carioca de 23 anos.

Em meio à pandemia, Castro quis lançar uma campanha para o Dia dos Namorados. Ao buscar por pessoas negras passeando em iates, nos bancos de imagens, não encontrou. “Simplesmente não existia. Todas os ensaios feitos, até então no mercado náutico, em todo o mundo, só contavam com pessoas brancas. Comentei com um amigo, o artista visual Beto Gatti, rapidamente decidimos que faríamos esse ensaio pioneiro”.

Setor elitista

O mercado náutico, além de elitista por uma questão prática de valores, também se mostra estruturalmente racista por não ver a pele preta como público consumidor.

“A culpa é do mercado? Não sei te dizer… Barcos tranquilamente chegam à casa dos 5, 10, 30 milhões de reais, e vivemos em um país que não está acostumado a ter pessoas pretas com esse padrão financeiro. Posto isso, decidi inserir a nossa cor no mercado de luxo de verdade, e não como um estilista que põe modelos negros em uma campanha preenchendo uma cota e fingindo apoiar a diversidade”, destaca.

O ensaio, batizado de “NegroMar”, serviu de base para um livro que será lançado com fotografias da campanha juntamente ao banco de imagens do Museu do Negro.

“Iremos transcorrer sobre a relação da nossa gente com o mar. Dos navios negreiros aos dias atuais. Podemos contratar serviços de luxo e termos lazer no mar. Hoje, a minha relação com o mar é de alegria, prazer, mas como era a relação com o mar do meu antepassado que veio em um navio dado a toda sorte de inclusive ser lançado à água e morrer afogado?”, questiona.

 

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