Revista Raça Brasil

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Negros são as maiores vítimas da Covid-19 no mundo

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Fernanda Otero

Correspondente da RAÇA na Europa e Africa é Jornalista e Tradutora. Foi selecionada com outros cinco jornalistas brasileiros pela Fundação Thomson-Reuters para um curso sobre os Objetivos do Milênio (2015).

Uma pesquisa realizada pelo Escritório de Estatísticas Nacionais (ONS, em inglês) do Reino Unido, constatou que os negros são quatro vezes mais propensos a morrer de Covid-19 do que os brancos, de acordo com números que expõem uma divergência dramática no impacto da pandemia do coronavírus na Inglaterra e no País de Gales.

O perfil descoberto pela pesquisa revelou que os homens de Bangladesh e do Paquistão tinham 1,8 vezes mais probabilidade de morrer da Covid-19 do que os homens brancos, depois de outros fatores pré-existentes terem sido contabilizados, e as mulheres dessas etnias tinham 1,6 vezes mais probabilidade de morrer do vírus do que as brancas.

Os autores pediram mais pesquisas sobre a contribuição do risco ocupacional e se as pessoas de origem BAME (negros, asiáticos e minorias étnicas) foram colocadas em maior risco de exposição e infecção. O estudo, que ainda precisa ser revisado, constatou que pessoas de origens sociais carentes também estavam em maior risco, e mais uma vez esta constatação não pôde ser explicada por outros fatores de risco.

Na cidade de Chicago, nos EUA, 72% das pessoas que morreram de coronavírus eram negras, embora apenas um terço da população da cidade o seja. Na Geórgia, a partir de 17 de abril, os brancos representavam 40% dos casos de Covid-19, embora representem 58% do estado. No Reino Unido, dos primeiros 2.249 pacientes com Covid-19 confirmado, 35% eram não-brancos. Isto é muito maior que a proporção de não brancos na Inglaterra e no País de Gales – 14%, de acordo com o censo mais recente.

Dado o longo histórico de desigualdade nos serviços de saúde na maioria dos países do mundo, estes números eram esperados e a pandemia é o mais recente exemplo de como a dinâmica racial se desenrola de formas cruéis.

 

Desigualdade de renda

Em muitos países brancos majoritários como os EUA (assim como em alguns países brancos minoritários como a África do Sul), pessoas de outros grupos étnicos e raciais têm menos acesso a recursos econômicos. São os mesmos grupos expostos a insegurança alimentar, que é definida quando o arrimo de família não tem recursos para garantir o acesso consistente a alimentos suficientes. Mesmo no pré-pandêmico, 91,1% das famílias sul-africanas consideradas vulneráveis à fome eram chefiadas por uma pessoa negra, em comparação com 1,3% para as famílias chefiadas por uma pessoa branca (embora os brancos representem 7,9% daquela população).

Nos EUA, as famílias negras, em 2018, tinham duas vezes mais probabilidade de estarem em insegurança alimentar do que a média nacional, com uma em cada cinco famílias sem acesso consistente a alimentos suficientes, mesmo antes da crise causar demissões maciças, com bancos de alimentos sobrecarregados de procura.

Na África do Sul, o economista de desenvolvimento da Universidade de Witwatersrand, Imraan Valodia previu que o confinamento levará a uma perda de renda de 45% para os 10% mais pobres das famílias, com efeitos especialmente prejudiciais para os trabalhadores informais sem uma rede de segurança.

Mas a desigualdade econômica não é o único desafio enfrentado de forma desproporcional pelos grupos BAME. A persistência de injustiças ambientais, por exemplo, significa que um número desproporcionalmente alto de famílias de minorias étnicas na América do Norte e Europa vivem perto de incineradores e aterros sanitários. Escolas com altas proporções de alunos de minorias estão localizadas perto de rodovias e locais industriais – tanto por razões econômicas quanto não econômicas. Isto também afeta a vulnerabilidade a condições de inflamação do pulmão, como asma e Covid-19.

E é preciso ter uma visão cuidadosa de como as consequências econômicas irão afetar desproporcionalmente as comunidades BAME. Por exemplo, após a crise financeira de 2007-08, as minorias étnicas no Reino Unido enfrentaram maior desemprego, menores rendimentos e maiores custos de habitação.

Os especialistas procuram uma resposta para a pergunta: “o que nos matará mais, a Covid19 ou a pobreza?” Por enquanto, é impossível responder. Para o microbiologista Wael Ellamin, da Universidade de Dubai, o que é claro a respeito do coronavírus é que, “a maneira como ele se espalha não é igual”.

 

*Com informações do The Guardian e BBC Future

 

**Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião da RAÇA, sendo de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

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