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O cinema contra o racismo

  • Autor: Redator

  • Publicado em: 16/10/2016

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Oswaldo Faustino escreve em sua coluna sobre o ator, produtor e diretor Luiz Antonio Pilar que luta contra o racismo por meio de suas produções artísticas

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | Adaptação web: David Pereira

O cineasta Luiz Antonio Pilar
O cineasta Luiz Antonio Pilar

Ator, produtor, diretor de cinema, teatro e TV, Luiz Antonio Pilar é dessas personalidades que, em vez de reclamar das dificuldades de ser negro no Brasil, preferem usar o talento e o fazer artístico para mudar essa realidade.

Outubro do ano 2000, a Colônia Ecológica do Sesc, na Praia de Iparana, em Fortaleza, sediou a pré-conferência: Novo Papel da Indústria de Comunicação e Entretenimento, promovida pela Fundação Cultural Palmares, com vistas à III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, em Durban, na África do Sul. Na mesa de debates, ao lado de outras personalidades, Luiz Antonio Pilar lança um desafio: “É fácil denunciar e protestar contra a forma como as emissoras de TV apresentam os personagens negros em novelas e minisséries. Quero ver as pessoas estudando e se preparando para escreverem boas histórias e roteiros com protagonistas negros e negras. Bons roteiros, quem é louco de recusar?”.

Carioca de Vila Vintém, hoje Pilar desenvolve projetos de desenvolvimento cultural da área onde nasceu e foi criado. Interpretando o negro alforriado Lucas Tavares, na minissérie “Abolição” – exibida em novembro de 1988 –, que defendia o fim da escravatura através das leis, em contraponto à escravizada rebelde Iná Inerã, vivida por Ângela Carneiro, passou a ser chamado de “O Abolicionista de Padre Miguel”. Durante esse trabalho nasceu uma parceria entre ele e o diretor de TV Walter Avancini, que o integrou a sua equipe de direção. Nela, Pilar dirigiu várias produções, tanto na Globo quanto na TVE e na extinta Rede Manchete.

Um dos projetos pessoais de Luiz Antonio Pilar é dar visibilidade a afro-brasileiros através de linguagens artísticas. Esse é um dos objetivos da produtora Lapilar Produções Artísticas, que ele criou para atuar nas áreas de cinema, programas e séries para TV, filmes institucionais, espetáculos teatrais e shows. “Heróis de Todo Mundo” é um dos produtos da Lapilar juntamente com o programa A Cor da Cultura. São cinebiografias – com 2 minutos cada – de personalidades negras atuantes na cultura, na história, nas ciências e na vida política do País. Cada personagem é interpretado por uma expressão negra contemporânea. Exibidos pelo Canal Futura, os vídeos são disponibilizados para escolas e instituições, em cumprimento à Lei 10.639/03. Graduado em Artes Cênicas, com habilitação em Direção Teatral, pela Uni-Rio, Pilar é um nome respeitado principalmente na direção de TV. Sua presença na equipe de Jayme Monjardim, quando foi gravada a minissérie “A Casa das Sete Mulheres,” sobre a Revolução Farroupilha, criou a expectativa de que se contasse a história dos Lanceiros Negros traídos pelos chefes revolucionários. Em acordo com as forças imperiais, estes desarmaram os batalhões negros, que foram massacrados na Batalha do Porongo. Mas a direção geral preferiu não abordar este assunto.

A produção mais recente da Lapilar, lançada em novembro último e que vem participando de vários festivais, é o filme “Remoção”, realizado em parceria com Anderson Quack, secretário-geral da CUFA. O documentário apresenta imagens e depoimentos de 60 personagens – vítimas e algozes – que viveram, nos anos 60 e 70, a desocupação à força de favelas da Zona Sul, em bairros como a Gávea, o Leblon, a Lagoa, Botafogo e Copacabana, para conjuntos habitacionais de Vila Kennedy, Vila Aliança, Cidade de Deus, Cidade Alta, Dom Jayme Câmara e a Cruzada São Sebastião. Eleito “melhor filme” pelo júri popular da Mostra Competitiva do RECINE 2013, o longa está em exibição em comunidades do Rio de Janeiro, escolas e universidades da rede pública.

Muitos dos trabalhos de Pilar abordam temáticas relacionadas à afro-brasilidade. Avesso à demagogia, ele afirma: “É uma questão ideológica, sim, mas fundamentalmente é porque tem um espaço comercial que demanda esse tipo de produção. A televisão, o teatro e o cinema têm de perceber que trabalhar com esse tema também dá lucro”.

 
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