Margareth Menezes escreve sobre as diversas formas de se expressar pelas madeixas

 

TEXTO: Margareth Menezes | FOTO: Estúdio Gato Louco/Divulgação | Adaptação web: David Pereira

 

Margareth Menezes | FOTO: Estúdio Gato Louco/Divulgação

Margareth Menezes | FOTO: Estúdio Gato Louco/Divulgação

Olá gente afropop do nosso Brasil, muita paz, saúde e amor! Esses dias eu estava pensando sobre um assunto que nos diz respeito desde criança: o nosso cabelo. Cabelo crespo, cabelo cacheado, cabelo de molinha, cabelo misturado e, muitas vezes, alisado. A dinâmica que podemos dar às nossas madeixas é incrível e, para alguns, diz muito sobre sua personalidade e sobre seu modo de pensar. Sempre ouvi que meu cabelo era duro, feio e fora do padrão, e que eu precisava alisá-lo. Fiz isso até os meus 17 anos, mas senti necessidade de mudar. Uma história curiosa marca essa transformação: um dia cheguei em casa com o cabelo cortado bem curtinho. Foi um alvoroço! Minha família não acreditou, meu pai então ficou muito fulo da vida e disse que eu só podia estar ficando doida. Para mim, no entanto, era um novo movimento que eu estava dando à minha vida e à minha imagem. Cansei de ter cabelo alisadinho e decidi assumir o meu cabelo afro!

Naquele momento, já se refletia em mim a rebeldia natural da minha personalidade mutante e, principalmente, surgia ali a consciência de que poderia ter quantas molduras quisesse com essa ferramenta múltipla que é o nosso cabelo. Quando ele cresceu crespo, ficou todo enroladinho. Eu ia à praia praticamente todos os dias e tomava muito sol, o cabelo amarelou naspontas e, por si só, ficou incrível. Eu era, então, uma mocinha negra com otom da pele avermelhado (na época usava óleo natural de urucum pra bronzear a pele, influência da minha descendência indígena) e os cabelos enroladinhos queimados nas pontas pelo sol. Uma figura! Com o passar do tempo fui moldando meu cabelo do jeito que eu imaginava a cada período, adaptando-o de acordo com meu momento e minha vontade. Dei relaxamento muitas vezes, preservando os cachinhos, usei black power, coloquei alongamento, mega hair, pintei de castanho, de preto. Hoje, uso torços, coques, tranças, dreads, perucas, uso o cabelo curto, solto, preso, enfim, não tenho limites para a minha cabeleira afro.

O cabelo afro é um luxo e pode se moldar a várias formas de apresentação. Não é qualquer cabelo que tem essa facilidade de se adequar aos penteados mais diversos. Para mim, a questão do alisamento radical é muito enquadramento, muito limitante, suprime a dinâmica que podemos dar à nossa imagem, aproveitando as muitas possibilidades do cabelo afro. A nova geração tem hoje uma oportunidade maravilhosa de soltar seus cabelos e liberar as ideias! Mas é importante lembrar que cabelo crespo não é sinônimo de cabelo ressecado ou desalinhado. Sem o cuidado devido, o cabelo fica feio – e isso independente de ser liso, crespo, louro, preto ou ruivo. Cabelo é pra ser bem tratado e bem usado, sem essa de enquadrar a juventude. Use o seu cabelo de acordo com a sua vontade, surpreenda, radicalize, experimente, provoque, descomplique. Faça do cabelo uma moldura livre para seu rosto! Afro na atitude e livre na imagem. E viva a quem tem cabelo obediente! Como diz minha querida amiga, a maravilhosa e multifacetada Eliza Lucinda, “cabelo ruim é o que foge da cabeça”. Margareth Menezes, cabeça pensante afropop brasileira.

Quer ver esta e outras matérias da revista? Compre esta edição número 180.

Comentários

Comentários