Devido à Lei 10.639, o mercado de livros voltados às crianças negras não para de crescer

 

TEXTO: Etiene Martins | FOTO: Etiene Martins | Adaptação web: David Pereira

O mercado literário voltado aos negros | FOTO: Etiene Martins

O mercado literário voltado aos negros | FOTO: Etiene Martins

O mercado literário voltado às crianças negras está em franca expansão! Em Belo Horizonte, por exemplo, as editoras já perceberam a demanda pela Lei 10.639 (que determina a obrigatoriedade do ensino da História da África e das populações negras do Brasil nas escolas), e que pais e educadores estão cada vez mais interessados em trabalhar a autoestima das crianças. Mas não é apenas isso! Atualmente, o estímulo à leitura tem levado nossas crianças a escolherem o que de fato querem ler. Essa escolha, para elas, tem que refletir a própria origem e a identidade, por meio de protagonistas bonitos, antenados e, claro, negros.

E a diversidade de obras que retratam a cultura negra é enorme. Os personagens, então! São príncipes, princesas, aventureiros e super-heróis que mexem com a imaginação dos pequenos sem, no entanto, apresentar os já conhecidos estereótipos que denigrem a imagem (e a realidade) da população negra brasileira. Até pouco tempo, era praticamente impossível encontrar nos livros um personagem negro que não tivesse características pejorativas, fato que comprometia a construção da identidade e do orgulho negro, formados ainda na infância no campo das semelhanças e diferenças e, principalmente, pelas diversas maneiras que o assunto é tratado pela sociedade.

Há 30 anos, Maria Mazzarello Rodrigues, conhecida como Mazza, trabalha inserindo a parcela negra da sociedade como protagonista na literatura brasileira. Fundadora de uma editora que leva seu apelido, localizada em um bairro da região leste de Belo Horizonte, Mazza se encantou com a diversidade de publicações voltada para a etnia negra existente na Europa durante o período que fazia mestrado em editoração na Universidade de Paris. Quando voltou ao Brasil, em 1981, lançou a editora. “Foram 24 anos de muito sufoco, apenas em 2003, que a literatura passou ser obrigatória, é que a situação começou a melhorar. Somente depois da lei, as grandes editoras lançaram um selo negro”, diz Mazza que, como toda negra, sentiu na pele o que é ser uma criança e não se identificar com nenhum personagem.

A falta de referência foi o que a impulsionou a entrar no mercado. “Nós entramos pelas portas do fundo, mas há ainda muito que se fazer, pois apenas dez estados brasileiros cumprem a Lei 10.639”, afirma. A obrigatoriedade da lei, no entanto, é vista também como uma grande oportunidade. “Todo aparato que até pouco tempo tínhamos vinha com a predominância branca e com traços europeus, não vejo a Lei 10.639 como obrigatoriedade, mas como uma oportunidade para as crianças negras que hoje podem interagir muito mais. Paralela à obrigatoriedade, está a oportunidade de quebrar esse preconceito”, declara a educadora Iris Amâncio.

 

Maria Mazzarello Rodrigues, conhecida como Mazza, trabalha inserindo a parcela negra da sociedade como protagonista na literatura brasileira | FOTO: Etiene Martins

Maria Mazzarello Rodrigues, conhecida como Mazza, trabalha inserindo a parcela negra da sociedade como protagonista na literatura brasileira | FOTO: Etiene Martins

 

EDUCAR COM BONS LIVROS

Chico Juba é um menino corajoso feito um leão. Ele é um grande inventor de xampus que pretende solucionar as incríveis reviravoltas de suas mechas. Seus esforços mostram para as crianças a incrível descoberta que podemos ter, sendo quem somos. A obra é de Gustavo Gaivota, que conseguiu transformar experiências negativas, vividas por crianças de cabelos crespos em uma grande aventura. “Todas minhas obras abordam as questões das diferenças, é o que me move”, diz o escritor. Os livros são absorvidos por pessoas como o professor Leandro Duarte, de 28 anos, que adora comprar publicações que apresentam a questão racial. Para ele, trabalhar com a diversidade é essencial em sua profissão. “O professor tem que fortalecer essas informações junto aos alunos. Na infância, o olhar lançado sobre o negro e sua cultura, tanto pode valorizar identidades e diferenças quanto estigmatizá-las, discriminá-las, segregá-las e, até mesmo, negá-las”, explica. Anderson Feliciano, autor de A verdadeira estória do Saci, acrescenta que é fundamental repassar para as crianças que elas podem, sim, contar sua própria história. “Eu quero que elas se identifiquem com os personagens e não se sintam excluídos como me senti na infância.” Para o ilustrador e escritor de livros infantis étnico-raciais, Rubem Filho, é necessário extinguir da literatura infantil o complexo de senhor e escravo. Ele parte do princípio da igualdade e quer mostrar para as crianças que elas têm todos os motivos para se orgulhar de serem negras.

E, se o mercado está aquecido e os autores produzindo em ritmo e criatividade acelerados, o consumidor não fica atrás em relação ao consumo de livros sobre a cultura negra ou que tragam personagens que servem como espelhos positivos para crianças e jovens. O médico André Luis, de 52 anos, busca compartilhar com o filho adotivo Fernando, de seis anos, a literatura e a cultura afro. “É importantíssima a valorização, não quero que meu filho se veja de forma massacrada, mas sim valorizada, faço questão de inserir em sua cultura publicações que o valorizam.” Andréia Aparecida, de 37 anos, e Celso Augusto, de 32 – ambos técnicos em enfermagem e pais de Vitória, de 8 anos, Guilherme, de 5, e o recém-nascido João –, seguem a mesma receita e procuram inserir a literatura na vida dos filhos desde muito cedo. “É bom que eles criem gosto pela leitura de bons livros”, declara Andréia.

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