O papel do negro nas HQs é tema de doutorado da USP. Confira

 

TEXTO: Fernanda Alcântara | FOTOS: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Deus, essa gostosa, de Rafael Campos Rocha | FOTO: Divulgação

Deus, essa gostosa, de Rafael Campos Rocha | FOTO: Divulgação

A questão do humor preconceituoso, que hoje permeia fortemente as redes se escondendo por trás de uma fajuta luta contra o “politicamente correto”, já é uma velha conhecida do nosso cotidiano. Este humor não está apenas no stand-up orgulhosamente ofensivo, mas permeia também a TV, rádio, cinema ediversas mídias, não é recente e tão pouco tem intenções de ir embora espontaneamente, afinal, para ele não existe o humor simples de um Charles Chaplin ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. E se este próximo é negro e pobre, pronto: temos aqui o estereótipo perfeito.

A análise do que tudo isso representa pode ser encontrada no trabalho de doutorado defendido por Nobuyoshi Chinen, intitulado “O papel do negro e o negro no papel: representação e representatividade dos afrodescendentes nos quadrinhos brasileiros”, desenvolvido na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. O estudo comprova que o negro historicamente foi, e ainda é, muito mal representado na produção nacional, qualitativamente e quantitativamente.

A ideia, segundo Chinen, surgiu da inquietação do autor naquilo que ele chama de paradoxos dos quadrinhos. Primeiro, o fato de gibi, termo usado como sinônimo de evista em quadrinhos no Brasil, etimologicamente significar menino negro, mas que nunca foi personagem de quadrinhos. Gibi foi o título de uma publicação em quadrinhos de muito sucesso e tinhacomo mascote, de fato, um garoto negro. No entanto, apesar de aparecer em diversas capas, ele jamais foi personagem de uma história em quadrinhos. Além disso, o autor, que há anos trabalha na área de quadrinhos, percebeu que historicamente, o personagem negro mais famoso dos quadrinhos é o Pererê, do Ziraldo, mas é um ser folclórico que, embora de boa índole e de ser o herói da série, não é um personagem “real”, ainda que personagens de
quadrinhos sejam quase todos, por princípio, de ficção. Ou seja, o humano, o negro do cotidiano pouco aparece nos quadrinhos e quando aparece ele não existe, não reflete um ideal ao qual o leitor possa aspirar. “Quando comecei a pensar no meu projeto de pesquisa, havia muitos estudos sobre super-heróis americanos e sobre mangás, o que é justificável por serem os mais bem sucedidos comercialmente e que têm mais visibilidade. Eu queria escolher um tema nacional para trabalhar porque nossa bibliografia é bastante escassa”, afirmou Chinen.

Lamparina, de J. Carlos | FOTO: Divulgação

Lamparina, de J. Carlos | FOTO: Divulgação

A história por trás das histórias

Para ter uma perspectiva mais ampla “e assim, mais consistente” sobre o assunto, Chinen teve que buscar os primórdios dos quadrinhos, ou seja, sua origem como comunicação de massa. Embora sua verdadeira origem seja um mistério, sabe-se que os quadrinhos provavelmente apareceram como uma espécie de evolução das charges humorísticas que já eram comuns entre osséculos XVIII e XIX. A própria denominação inglesa para elas é comics
(cômico) ou funnies (engraçado); a palavra mangá significa desenho sem compromisso. E nesta confusão de sentidos e intenções, nada mais “natural” que os primeiros desenhos tivessem o negro estereotipado, assim como japoneses, afinal, a caricatura tem a função de realçar as diferenças e expor de tal modo que as tornem engraçadas. Mas é nesta intenção de provocar o riso que os quadrinhos pecam há alguns anos. Como em tantos outras formas de arte, a intenção da ilustração é fazer com que o leitor rapidamente identifique (e muitas vezes se identifique) os personagem retratado, sem precisar de maiores explicações. E este modo de ver acaba setornando um padrão, que na maior parte das vezes esbarra no arriscado limite que é tornar-se ofensivo.

Nos primeiros anos dos quadrinhos – e todos os outros que se seguiram depois disso – esses estereótipos foram usados sem o mínimo respeito, uma vez que esta era a forma ‘normal’ de reproduzir estas características. Logo nas primeiras ilustrações datadas entre o fim do século XIX e o começodo XX, os trabalhos que representavam os negros já estavam associados à
imagem de selvagens nativos, com ossos atravessados no nariz como adereços e vestindo tangas ou saias de palha. Anos depois, os negros passam a ter uma imagem diferente: segundo Fredrik Strömberg, no livro Black Image in the Comics (2003), começam a aparecer os serviçais homens e mulheres negros, invariavelmente trabalhando para um patrão branco.

O trabalho de Nobu Chinen traz uma brilhante análise deste pensamento de Strömberg, com um levantamento quantitativo e qualitativo desta questão. Em uma população em que mais de 50% se autodeclara afrodescendente, a quantidade de personagens negros não se mostra proporcional a dos brancos. A importância do quadrinho, assim como seria a da televisão e tantas outras formas de propagação de estereótipos, é muito pouco questionada. Afinal, a
eficácia de construir uma autoestima tão baixa e coletiva nada tem a ver com o meio de comunicação, e sim com a mensagem e a forma como esta é ali veiculada. “Num mundo altamente visual como o que vivemos, os quadrinhos cumprem a função de atrair pelo estímulo das imagens e ainda informar pela palavra escrita. E, ao contrário do que se pregava antigamente, elas não tornam a mente preguiçosa. O omitido, ou seja, o que não é mostrado entre um quadrinho e outro é preenchido pela imaginação do leitor que, além disso, também “cria” os sons, as vozes, os movimentos que os quadrinhos apenas sugerem”.

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