Mesmo não reconhecido como santo pelo Vaticano, São Antônio de Categeró ainda é mantido no altar pela fé popular. Confira sua história contada por Oswaldo Faustino

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTOS: Reprodução | Adaptação web: David Pereira

Imagem de São Antônio de Categeró | FOTO: Reprodução

Imagem de São Antônio de Categeró | FOTO: Reprodução

Em suas narrativas sobre a fé dos brasileiros, o missionário protestante norte-americano Daniel Kidder, que esteve no Brasil no século XIX, conta que durante uma procissão viu um homem negro olhar para o andor que levava um a imagem de um santo, um frade negro, e afirmar: “Lá vem o meu parente”. Mais do que devoção, há uma verdadeira relação de parentesco entre as comunidades negras e seus santos e santas.

A imagem levada naquela procissão descrita por Kidder poderia ser de um frade negro com um menino no colo ou com um crucifixo. Fosse o primeiro, seria São Benedito e o outro, Santo Antônio de Categeró. Ambos ficaram famosos na Itália. Benedito, descendente de escravizados etíopes, como eram chamados todos os africanos negros, nasceu na Sicília, em 1526. Antônio, nascido um pouco antes, é de Barca, cidade na Cirenaica, na antiga Cirineia, no Norte da África, atual Líbia. Ele também é venerado com os nomes de Antônio de Cartago, Antônio de Noto e Antônio Etíope.

Ao ser sequestrado e levado para a ilha da Sicília, Antônio era muçulmano. Foi vendido por valor equivalente ao de dois cavalos a um camponês da cidade de Noto, que o encarregou de pastorear seu rebanho de cabras e ovelhas, mesma atividade que também seria exercida posteriormente pelo menino Benedito, também escravizado. Converteu-se ao catolicismo.

Além da opção religiosa, esta poderia ser uma boa maneira para livrar-se do julgo da escravidão, ou pelo menos aliviá-lo. Ele aproveitava a tarefa de pastor para distribuir leite e queijo para os necessitados, mesmo contra a vontade do patrão. Ao conquistar a liberdade, Antônio entrou para a Ordem Terceira de São Francisco, a Ordem Franciscana Secular (OFS), que agrega devotos leigos e se dedica à pobreza e demais necessitados. Famoso por sua dedicação e disciplina, segundo Salvatore Guastella, autor do livro “Santo Antônio de Categeró: sinal profético do empenho pelos pobres”, foi trabalhar voluntariamente em hospitais. Já Benedito ingressaria na vida monástica através da Ordem dos Frades Menores (OFM), também franciscana. Porém, o que se sabe é que no convento lhe couberam as funções menos prestigiadas, como as de porteiro e cozinheiro.

A Igreja Católica Apostólica Brasileira na Vila Formosa | FOTO: Reprodução

A Igreja Católica Apostólica Brasileira na Vila Formosa | FOTO: Reprodução

Mendigar para poder fazer caridade aos necessitados era uma das atribuições dos membros da Ordem Terceira. E era o que Antônio fazia, quando não estava banhando e trocando as ataduras de enfermos em hospitais de Noto. Dizem seus devotos que, em sua humildade, até isso era muito luxo para a vida penitente que ele almejava viver. Por isso decidiu retirar-se para o deserto, como eremita, para dedicar-se à contemplação divina e à meditação, até falecer em 14 de março de 1549.

Cinquenta anos após a morte do eremita, seu túmulo foi aberto, em 13 de abril de 1599. Para surpresa geral, seu corpo não havia se decomposto. Estava íntegro como no dia de seu sepultamento. Imediatamente a notícia se espalhou e se iniciaram as narrativas de inúmeros milagres ocorridos por sua intercessão. Uma imagem sua foi esculpida e, posteriormente, encaminhada a uma igreja em que se cultua sua devoção, na África. De lá, atravessou o Atlântico e hoje se encontra na igreja da Paróquia de Nossa Senhora da Anunciação, no bairro Riachuelo, no Rio de Janeiro.

A notícia, há algumas décadas, de que Antônio de Categeró figurava na lista dos santos não reconhecidos pelo Vaticano não abalou a fé de seus devotos. Em São Paulo, a Igreja Católica Apostólica Brasileira o assumiu para si. Ergueu-se um templo em sua devoção na Rua Tauandê, Vila Formosa, no final da década de 1950. Em frente ao templo, foi construída uma “gruta dos milagres”. Em janeiro de 1968, uma longa reportagem da Folha de S. Paulo descrevia as peregrinações com números de fiéis que iam de 5 a 15 mil pessoas numa sessão de terça, sexta ou domingo. Hoje, ali também funciona a Casa do Bom Samaritano. Se a fé move montanhas, a devoção a Santo Antônio de Categeró é um bom a canal para a remoção dos preconceitos dos corações dos fiéis. Acreditar que Deus possa atender desejos e sanar necessidades por meio da interseção de um santo negro é um interessante ponto de partida para defender os princípios que promovem a equidade.

Quer ver esta e outras matérias da revista? Compre esta edição número 189.

Comentários

Comentários